PARTE 1

CAPÍTULO 01 – ESTADOS UNIDOS

A batalha sobre Los Angeles

Na madrugada de 25 de fevereiro de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, misteriosos aviões, capazes de ficar “imóveis” e acelerar bruscamente, foram caçados pelo fogo da 37a Brigada Antiaérea. No dia seguinte, o chefe do Estado-Maior do Exército, general George C. Marshall, endereçava ao presidente Franklin Delano Roosevelt um memorando secreto reportando que:

1) Aeroplanos não identificados, que não eram do Exército ou da Marinha norte-americana, se encontravam provavelmente sobre Los Angeles. Descargas de fogo foram atiradas contra aqueles aviões por elementos da 37a Brigada CA (AA) entre 03h12 e 04h15. Aquelas unidades lançaram 1.430 obuses;

2) Eram uns 15 aeroplanos que voavam a velocidades variadas, conforme descrições oficiais, desde muito lentamente até 360 km/h, e a altitudes de 2,7 a 5,4 km;

3) Nenhuma bomba foi lançada;

4) Nossas tropas não registraram nenhuma baixa;

5) Nenhum avião do Exército ou da Marinha norte-americana entrou em ação. A pesquisa continua. Parece razoável concluir que, se aeroplanos não identificados estavam implicados, poderiam ter sido utilizados por agentes inimigos com a finalidade de espalhar a inquietação, de descobrir a localização das posições da defesa antiaérea e de diminuir a produção através do blackout. A conclusão é reforçada pelas diferentes velocidades dos aparelhos e pelo fato de que nenhuma bomba foi lançada”.

Foo fighters

Durante a Segunda Guerra Mundial, sempre que se avistava algo estranho no céu considerava-se este como sendo parte do arsenal inimigo. Assim procederam os comandantes norte-americanos ante os relatos pitorescos dos pilotos da Força Aérea que se disseram perseguidos por bolas luminosas vermelhas, laranjas e brancas que pareciam brincar com seus aviões no outono de 1944. Alguns deles foram acompanhados por até 10 dessas luzes, apelidadas pelos pilotos da 415a Esquadra de Caças Noturnos dos Estados Unidos, baseada em Dijon, na França, de foo-fighters, um jogo de palavras misturando o termo francês feu [Fogo] e o inglês fighter [Lutador, brigador]. A esquadra efetuava missões de combate e reconhecimento sobre a Zona do Rim, ao norte de Estrasburgo, no setor da frente compreendida entre Hagenau e Neustadt, ao oeste do rio dos Germanos.

Os primeiros informes vieram da tripulação de um bombardeiro B-29 na noite de 23 de setembro de 1944. A bordo, o tenente Ed Schluetter, o radialista Donald J. Meire e o tenente Fred Ringwald, oficial da Inteligência Militar que viajava como observador, justamente o primeiro a notar o que pareciam ser estrelas. Aos poucos, as estrelas se tornaram oito bolas luminosas alaranjadas que se moviam velozmente. Desapareceram para logo reaparecerem mais adiante e, minutos depois, sumiram por completo. A Inteligência Militar classificou-as como armas secretas alemães, embora nunca tenha sido registrado nenhum caso de ataque. Um bombardeiro B-24 foi seguido por uma formação de 15 foo-fighters. A tripulação de um B-29, em missão de bombardeio sobre o Japão, também os avistou. Nessa época, os alemães travavam suas derradeiras batalhas, e os estranhos objetos pareciam um recurso desesperado.

Ao término da guerra, o mistério aumentou. Os Aliados examinaram os documentos inimigos e constataram que os alemães e os japoneses tinham ficado igualmente intrigados com o que para eles eram armas secretas dos Aliados. As explicações estenderam a plausibilidade até o limite, já que era altamente improvável que um número tão grande de pilotos, de ambos os lados, pudessem ter sido afetados por alucinações. Os foo-fighters continuaram a aparecer durante todo o ano de 1946. Tripulações de bombardeiros que sobrevoaram o Pacífico e militares que lutaram nas guerras da Coréia e do Vietnã, reportariam fenômenos semelhantes.

Os ingleses, preocupados, chegaram a formar uma comissão, sob o comando do tenente-general Massey, para determinar sua origem. Os nazistas, que chamavam os foo-fighters de krauts fireballs, constituíram outra em 1944. Os inquietantes informes procedentes dos pilotos da Luftwaffe, levaram à criação do Sonder Büro no 13, cujas atividades se ocultaram sob o nome em código de Operação Uranus. Integravam a Base Especial no 13, oficiais da aviação, engenheiros aeronáuticos e conselheiros científicos ligados ao Estado-Maior Superior do Exército do Ar.

Kenneth Arnold

A Ufologia tem uma data inaugural: 24 de junho de 1947, terça-feira, um dia que deveria ser como outro qualquer para o norte-americano Kenneth Arnold, 43 anos, casado com Doris, pai de dois filhos, piloto civil de pequenos aviões [Patente 333.487], habilitado em vôos sobre montanhas e proprietário de uma pista de aterrissagem nas proximidades do Campo Aéreo Bredley, em Boise, Idaho. Arnold decolara de Chehalis, no Estado de Washington, com seu monomotor Piper [Matrícula NC-33.355], e voava entre esta cidade e Yakima, na esperança de localizar os restos de um avião C-46 de transporte do Corpo de Fuzileiros Navais que se extraviara no Monte Rainier [4.300 m de altitude], montanha sagrada dos índios chinooks no Parque Nacional Monte Rainier, perto da fronteira com o Canadá.

Por volta das 15h00, sua atenção foi atraída para o que lhe parecia um “bando de patos selvagens” voando em formação de “V” sobre a costa leste da montanha. Divisando melhor, notou que eram achatados e de grandes dimensões, pois calculou a distância que os separava em quase 30 km: “A atmosfera estava clara como cristal, e quando retomei meu rumo, um relâmpago brilhante refletiu-se no interior de minha cabine. Intrigado, olhei para trás e vi nove coisas que avançavam em diagonal. Por um momento, pensei que eram um novo tipo de avião a jato, mas em seguida descobri que não tinham cauda. Voavam como gansos, mas como gansos mais velozes, porque atingiam uma velocidade de 2.700 km/h”.

Ao chegar ao seu destino, Arnold contou aos demais pilotos sobre o que vira. Aos repórteres Notan Skiff e Bill Bequette, do jornal East Oregonian, o piloto explicou que aqueles objetos se moviam como um“pires deslizando e saltando sobre a água”. A metáfora de que se valeu para tentar fornecer uma imagem do movimento – e não propriamente da forma – do objeto, se transformou no rótulo flying saucers [Pires, ou pratos voadores]. Durante una entrevista a uma emissora de rádio no dia seguinte, Arnold compararia aquele objeto com “bandejas para torta cortadas pela metade, com uma espécie de triângulo convexo na parte de trás”. A notícia espalhou-se como um rastilho de pólvora, e em poucas horas estava nas primeiras páginas de todos os jornais dos Estados Unidos. O Examiner, de São Francisco, em sua edição de 26 de junho de 1947: “Mysterious ‘flying saucers’ seen over Oregon by Ranger”. O Milwaukee Journal, de Milwaukee, na mesma data: “Londe flier only one to sight big objects in Western sky”.

A pedido da Força Aérea, Arnold elaborou desenhos que nem de longe eram parecidos com os clássicos discos unidos pelas bordas que outras testemunhas começariam a descrever. Mais tarde, o célebre piloto tentou retificar a expressão, dizendo que comparar o que vira com “pires” se tratava de “um enorme mal entendido”. Àquela altura, porém, não havia mais volta. Numa pequena redação de um jornal do noroeste de Oregon havia nascido o enigma popular mais fabuloso e persistente do século XX.

O mundo inteiro também a comentava, ganhando tanto destaque que o termo “disco voador” passou a designar, indistintamente, os objetos misteriosos avistados no céu, tivessem ou não a forma discóide. Conforme o The Random House Dictionary of the English Language [Nova York, 1966, p.549], o termo “disco voador” se aplica a “todos os objetos variados em forma de disco, pretensamente vistos em vôo a grande velocidade e altitude, muitas vezes com extremas modificações de velocidade e de direção, e geralmente considerados como provenientes do espaço”. O Aurélio define o termo como “Objeto discóide observado por alguns a mover-se velocissimamente pela atmosfera terrestre, e cuja origem não foi identificada, conjeturando-se que seja fenômeno meteorológico, ou ilusão de óptica, ou engenho de guerra, ou aeronave extraterrestre etc” [Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1995, p.224].

O povo norte-americano, em sua maioria, acreditou na descrição do piloto, afinal, havia muito tempo que coisas misteriosas vinham aparecendo. Começava a Era Moderna dos Discos Voadores. Transcorridas poucas semanas, a Força Aérea estabeleceu uma comissão para investigar e analisar relatórios semelhantes. A expressão popular induzia a falsas interpretações, por isso os militares preferiram uma expressão menos parcial. O capitão Edward J. Ruppelt cunhou o termo genérico UFO, acrossemia, em inglês, de Unidentified Flying Object [Objeto Voador Não Identificado]. Com a Guerra Fria em curso, muitos acreditaram que aquelas coisas eram uma arma secreta norte-americana ou o prenúncio de uma futura invasão russa.

À narrativa de Arnold, seguiram-se novos casos. Quatro dias depois, em 28 de junho, às 15h15, um piloto da Força Aérea, a bordo de um F-51, voava nas proximidades do Lago Meade, Nevada, quando viu à sua direita uma formação de seis objetos. Na mesma noite, às 21h20, quatro oficiais da Força Aérea – dois pilotos e dois oficiais da Inteligência –, lotados na Base Maxwell, em Montgomery, Alabama, reportaram que uma luz efetuou ziguezagues sobre eles e uma manobra em ângulo de 90º, desaparecendo ao sul.

Incidente em Roswell

Com uma semana de intervalo, nasceria o caso de maior vulto da história da Ufologia. Por volta das 21h50 de 02 de julho, a 46 km a noroeste da cidade de Roswell, Novo México, os moradores presenciaram a passagem de um objeto resplandecente. Um pouco mais tarde, nessa mesma noite, o fazendeiro William W. Brazel ouviu uma explosão sobre a sua propriedade, mas só na manhã seguinte foi verificar o que tinha ocorrido.

Espalhados sobre uma faixa de terra de 400 m, encontrou fragmentos parecidos com folhas de estanho. Eram chapas finas e flexíveis que não se queimavam no fogo, não rasgavam e restituíam a forma original mesmo depois de amassados. Havia ainda pequenas tábuas com uma espécie de escrita hieroglífica. Seis dias depois, Brazel resolveu levar os materiais ao xerife George Wilcox, que não hesitou em telefonar para a Base Aérea de Roswell, onde funcionava o 509º Grupo de Bombardeio da Força Aérea, que aliás detinha bombas atômicas.

Coube ao major Jesse Marcel, oficial de informações do Estado Maior da Força Aérea, vistoriar o local. Os restos que recolheu bastaram para que se convencesse de que eram parte de um disco voador acidentado. O primeiro-tenente e relações públicas Walter C. Haut, com o aval do coronel William H. Blanchard, divulgou um press release publicado na primeira página do jornal Roswell Daily Record, de 08 de julho. A manchete: “RAAF Captures Flying Saucer On Ranch in Roswell Region”. O texto da matéria dizia que “Todos os boatos concernentes aos discos voadores tornaram-se realidade ontem, quando o oficial investigador do 509º Grupo de Bombardeiros da 8ª Força Aérea, teve a sorte de obter a posse de um disco graças à cooperação de um dos granjeiros locais e do gabinete do xerife de Chaves County”.

Decorridas menos de 24 horas, a Força Aérea negou tudo. Os fragmentos foram levados para o quartel-general em Fort Worth, Texas, onde o general-de-brigada Roger Maxwell Ramey obrigou Marcel a posar para fotos junto dos destroços de um balão meteorológico e declarou à imprensa que o major os confundira com um disco voador. Marcel, por força da hierarquia, curvou-se.

Nesse intervalo, o engenheiro civil Barrey Barnett, que trabalhava na conservação do solo para o governo federal, informou ter localizado um disco voador acidentado com vários extraterrestres mortos a bordo na planície de San Augustin Plains, região de Socorro, Novo México. Nesse local havia sido instalado um campo de escuta do Observatório Nacional de Radioastronomia por não ser afetado pelas interferências elétricas provocadas pelo homem.

Uma operação militar gigantesca foi implementada, que, de acordo com as testemunhas, mobilizou cerca de cinco mil homens no isolamento das áreas da queda e da explosão. Especulou-se que o disco explodira sobre a fazenda de Brazel mas despencara somente em Socorro, a 180 km de distância. Os destroços teriam sido levados para a Base Aérea de Wright Patterson, em Dayton, Estado de Ohio, e guardados no interior de um galpão denominado “Hangar 18”. O senador Barry Goldwater, que foi candidato à Presidência dos Estados Unidos, teve negado o acesso – por não possuir o nível necessário de autorização clearance –, quando procurou inteirar-se do assunto. Goldwater afirmou que “Há muito desisti de entrar no Salão Azul da Wright-Patterson, pois colecionei uma longa série de negativas, vindas de um chefe após outro. Este negócio ficou tão secreto […], que é impossível conseguir qualquer informação sobre ele”.

A saga prosseguiu célere nas cinco décadas subsequentes. Conta-se que pelo menos 15 pessoas foram mortas ou silenciadas por insistirem em falar demais. Na década de 70, valendo-se da Freedom Of Information Act [FOIA, ou Lei de Liberdade de Informações], os ufólogos impetraram ações judiciais contra o governo norte-americano tencionando desencavar documentos que atestariam o resgate do disco voador e dos corpos dos seres extraterrestres. Em 1977, Marcel, agora tenente-coronel, retomou pessoalmente as investigações do episódio que o ridicularizara perante a nação. Por meio de seus colegas militares, apurou ter havido um acobertamento sem precedentes. Decidiu comparecer a programas de entrevistas na televisão nas quais expôs sua versão, motivando outras pessoas a saírem do silêncio.

Desde então, mais de 350 testemunhas diretas prestaram declarações públicas. As repercussões continuaram mais vivas do que nunca ao longo da década de 90. As reiteradas negativas governamentais geraram efeitos contrários. O consenso favorável tendeu a crescer a medida em que os setores responsáveis pelo seu esclarecimento se esquivavam. Ao ensejo das comemorações do cinquentenário, a USAF reconheceu afinal que um artefato explodiu a noroeste de Roswell.

Anteriormente, em julho de 1994, a USAF havia liberado um relatório repleto de lacunas intitulado The Roswell Report: Fact vs. Fiction in the New Mexico Desert. No relatório The Roswell Report: Caso Encerrado, a USAF confirmou a autenticidade dos relatos das testemunhas que viram os destroços que, longe de serem de outro planeta, eram balões de polietileno, material que brilha intensamente e muda de cor ao passar pelo horizonte e ser atingido pela luz solar pouco antes do amanhecer.

Os balões carregavam um protótipo da sonda Viking no formato discóide, fabricada pela Martin Marieta Corporation, de Denver, Colorado, e recuperada no lugar exato do disco voador acidentado, em San Augustin. Os destroços em Roswell, na fazenda de Brazel, eram fragmentos de balões do Projeto Mogul, equipados com instrumentos para espionar, via radar, explosões nucleares e lançamentos de mísseis e foguetes da União Soviética. O que pareceu às testemunhas corpos de extraterrestres mortos espalhados no solo de San Augustin, eram bonecos usados em saltos de pára-quedas a altitudes superiores a 30 km, os quais simulavam o resgate de astronautas em vôos espaciais. Os danos sofridos na queda deixaram os bonecos com o aspecto estranho que as testemunhas descreveram – olhos enormes, quatro dedos, um só braço. O extraterrestre que muitos disseram ter visto entrar, caminhando, no Hospital da Base Aérea de Roswell, era o capitão da aeronáutica Dan Fulgham, que em 1959 sofrera um terrível acidente que o deformara.

A União Soviética saiu à frente na corrida espacial com o lançamento do Sputnik em 1957. Os Estados Unidos trataram de recuperar o tempo perdido e aceleraram o programa Corona, que fracassou em 10 tentativas de lançamento do satélite Discover entre 1949 e 1960. Surgiu então a idéia de lançar satélites a partir de um balão de alta altitude. A primeira tentativa falhou, mas em 11 de abril de 1960, o Discover XII ejetou uma cápsula que completou uma órbita em torno da Terra. A partir daí, os Estados Unidos ultrapassaram a União Soviética. Entre as naves estavam as sondas Voyager-Mars, cujos formatos eram iguais às dos discos voadores. Muitas sondas eram recuperadas no White Sands Missile Range, Novo México, o que explicaria os tantos UFOs avistados na área. O livro The Truth about the UFO Crash at Roswell, de Kevin D. Randle e Donald R. Schmitt [Avon Books, 1997], estampou o desenho de um dos discos voadores avistados, em forma de delta. É exatamente igual ao Balão Vee, lançado em março de 1965 da Base de Holloman, Novo México.

Faltou explicar porque o agente funerário Glenn Dennis foi consultado por um pediatra do Hospital de Roswell – possivelmente Frank B. Nordstrom, embora Dennis não tenha perguntado se nome – sobre o preparo de caixões para crianças e o embalsamento de corpos que teriam ficado muitos dias expostos ao ambiente. Dennis contou ter encontrado uma apavorada enfermeira, Naomi Maria Selff, que lhe confidenciou a participação nas autópsias de pequenos e estranhos corpos. A enfermeira, “obrigada a guardar silêncio”, foi transferida para a Inglaterra e dada como morta num suspeito “acidente” aéreo.

A USAF jurou serem essas as verdades finais – divulgadas porque não mais representavam perigo para a segurança nacional –, gastando para tanto 231 páginas que de nada serviram para demover a arraigada crença dos ufólogos. Ao longo de julho de 1997, mais de 10 mil pessoas peregrinaram pelas ruas “sagradas” de Roswell, convertida em Meca pós-moderna.

Na esteira do incidente em Roswell, William A. Rhodes bateu no entardecer de 07 de julho, em Phoenix, Arizona, as primeiras fotografias de um hipotético UFO – no formato de um salto de sapato masculino, descrição próxima à de Arnold – cruzando velozmente o céu em direção a sudoeste. As fotos foram publicadas dois dias depois no jornal Republic, do Arizona. Na semana seguinte, Rhodes foi visitado por um agente do Birô Federal de Investigações [Federal Bureau of Investigation, FBI] e por um oficial do setor de investigações da aeronáutica que lhe interrogaram meticulosamente e pediram que lhes emprestasse os negativos do filme. Quando exigiu a sua devolução, um mês após, foi informado por carta de que isso seria impossível. No início de 1948, dois oficiais do Projeto Sign [Sinal] apareceram para entrevistá-lo. Em seguida, nunca mais se ouvir falar no caso e nos arquivos o avistamento de Phoenix está classificado como “trote”, ainda que alguns investigadores tivessem considerado autênticas as fotos.

A semana de 04 de julho foi fértil em observações que se centralizaram na região de Portland, Oregon. Às 11h00, nas proximidades de Redmond, pessoas em um automóvel viram quatro objetos discoidais cruzando o céu, para além do Monte Jefferson. Às 13h05, um policial que se encontrava num estacionamento atrás do quartel de Portland, notou os pombos agitados. Olhando para o céu, viu cinco discos, dois em direção sul e três a leste, oscilando sobre seus eixos laterais. Minutos após, dois outros policiais relataram o aparecimento de três UFOs voando em fila. Em Milwaukee, Oregon, foram observados na direção noroeste. Em Vancouver, Washington, funcionários do Departamento de Polícia avistaram cerca de 20 desses misteriosos engenhos.

Em 09 de julho, o jornal El Diario, de La Paz, Bolívia, reproduzindo informação distribuída pela agência internacional de notícias United Press (UP) e publicada originalmente no diário vespertino A Noite, reportava que os moradores de Presidente Prudente, cidade a cerca de 60 km do Rio Paraná, oeste do Estado de São Paulo, encontravam-se intranqüilos devido aos “discos voadores” que rondavam a localidade. El Diario mencionava que várias pessoas afirmavam ter visto os discos, inclusive uma moça chamada Dulce Lema, que às 14h00 acompanhou “um objeto em forma de meia lua e cor de alumínio” percorrer o céu em grande velocidade e altura. As companheiras de trabalho do escritório comercial onde Dulce trabalhava, descreveram o objeto como tendo a forma de um “prato branco”.

Em 16 de julho, o vespertino Diário da Tarde publicou a seguinte carta, enviada no dia anterior por Lamirio Santos, de Belo Horizonte, Minas Gerais: “Senhor redator do Diário da Tarde, cordiais saudações. Levamos ao conhecimento dessa redação que ontem, às 21h30, mais ou menos, o signatário desta, o co-piloto Leôncio Nogueira, o mecânico José Faguini, o navegador Fernando Sampaio e mais dois funcionários, todos da Panair, do avião PP-PBX, vimos distintamente um disco voador passar a grande velocidade sobre o Campo da Lagoa Santa, na direção leste-oeste. Como tínhamos de zarpar pela manhã, não pudemos ir pessoalmente a essa redação dizer o que vimos e que é pura expressão da verdade”.

No final do mês, a política de sigilo em torno dos UFOs tornou-se mais severa. “Os jornalistas que inquiriam sobre as atividades da Força Aérea a respeito recebiam o mesmo tratamento que receberia hoje quem perguntasse qual o número de armas termonucleares atualmente em estoque no arsenal atômico dos Estados Unidos. Ninguém, exceto alguns oficiais de alta patente do Pentágono, estava a par do que faziam ou pensavam as pessoas que viviam nos alojamentos cercados por arame farpado do ATIC”, assinalou Ruppelt.

Uma pesquisa do Instituto Gallup, divulgada em 19 de agosto de 1947, revelou que nove entre 10 norte-americanos tomara conhecimento dos discos voadores, ao passo que um número bem menor ouvira falar no Plano Marshall de reconstrução da Europa.

Projeto Sign

O tenente-general Nathan F. Twining, chefe do Comando do Material Aéreo, ordenou uma investigação completa, e em carta secreta ao general-comandante da Força Aérea do Exército – nome alterado em seguida para Força Aérea dos Estados Unidos, USAF – datada de 23 de setembro de 1947, manifestou a opinião de que o fenômeno era “algo real e não coisa ilusória ou fictícia”, recomendando no item 3, inciso III, que o Estado-Maior das Forças Aéreas definisse prioridades e nome em código.

Atendendo as diretivas, seria criado o Projeto Saucer [Pires], logo modificado para Projeto Sign [Sinal]. O Sign arregimentava-se para iniciar os trabalhos após uma passagem de ano marcada pelo reaparecimento dos “foguetes fantasmas” sobre os países escandinavos – os adidos da Suécia, Dinamarca e Noruega metralhavam a ATIC com telegramas, e este respondia solicitando mais informes –, até que na manhã de 07 de janeiro de 1948 ocorreu um fato que, pelas suas trágicas conseqüências, obrigou o governo a redirecionar sua política.

A morte do capitão Mantell

Comandados pelo capitão Thomas F. Mantell, 25 anos, quatro aviões de combate tipo F-51D Mustang regressavam de um vôo de exercício à Base Aérea de Godman, em Fort Knox. Um dos caças, com menos combustível, recebeu autorização para pousar, enquanto os demais rodeavam a pista uma última vez. Nesse momento, o controlador de rádio da torre notificou-os de que um UFO tinha sido avistado no céu, entre as nuvens. Acelerando, os caças saíram em perseguição a um “enorme copo de sorvete com cobertura vermelha”. Como seus dois colegas não possuíam oxigênio nem combustível suficiente, Mantell ordenou que regressassem, enquanto continuaria subindo atrás do UFO. O pessoal da torre ouviu-o dizer, excitado: “Estou chegando perto dele”. Depois, silêncio.

Imediatamente uma busca foi organizada, e na manhã seguinte os restos do caça F-51 e do seu desafortunado piloto foram encontrados espalhados sobre uma grande área, “como se o avião tivesse explodido em vôo”. A notícia de sua morte consternou a USAF, que se apressou a inventar uma “explicação” que não convenceu ninguém: “Mantell perdeu os sentidos ao subir a uma altitude muito grande, perseguindo um balão de pesquisas Skyhook [Anzol no Céu]”. Teria ele se confundido com um balão? Mesmo que isso tivesse acontecido, sua máquina, lançada a 640 km/h, teria simplesmente atravessado o frágil balão de náilon. E onde encontrar um balão de sondagem capaz de fugir de um caça àquela velocidade? O capitão foi dado como morto em serviço e lançou-se uma pá de cal oficial sobre o caso. Nos meios ufológicos, Mantell tornou-se o “primeiro herói sacrificado”.

O Incidente Mantell obrigou à complementação do decreto ou resolução por meio do qual o secretário de Estado da União, James Forrestal, criara o Projeto Sign, denominação que camuflava, por conselho das forças armadas, o Projeto Saucer, substituindo-se a palavra saucer por sign. O projeto de referência, cujo decreto foi assinado em 30 de dezembro de 1947, tinha vigência de dois anos, devendo expirar em 27 de dezembro de 1949. O Sign entrou em funcionamento na Base Aérea de Wright-Patterson 15 dias depois da morte de Mantell. Assessorados por cientistas de renome – entre eles o astrofísico Josef Allen Hynek, chefe do Departamento de Astronomia da Universidade de Ohio – e auxiliados por oficiais do Serviço de Inteligência da USAF, os membros do Sign interrogaram testemunhas e analisaram indícios.

Combate aéreo

Travou-se na noite de 01º de outubro um dos mais estranhos combates aéreos já registrados. A Segunda Guerra terminara havia três anos, mas muitos aviões de combate F-51D Mustang, de propulsão convencional, continuavam em uso. Ocorre que milhares tinham sido fabricados nos últimos meses do conflito. O capitão Gorman pilotava uma dessas velozes – 720 km/h na horizontal –, robustas e eficazes máquinas quando perseguiu um UFO que emitia intensa luz verde.

Por volta das 20h30, chegava a Fargo, vindo de um vôo de treinamento. Ainda rodeou a cidade por meia hora até resolver aterrar. Contatou a torre de controle solicitando instruções para o pouso e foi avisado de que um Piper Cub trafegava na área. Olhando para baixo, Gorman localizou o pequeno avião e viu o que parecia ser a luz traseira de navegação de um outro avião passando à sua direita. Notificou a torre que informou não ter conhecimento de nenhum outro aparelho na área. O instinto de piloto de caça levou Gorman a fechar os flaps [Comandos aerodinâmicos que reduzem a velocidade do avião em vôo] e acelerar mergulhando como um falcão rumo à “coisa”.

Na torre, o controlador L. D. Jansen acompanhou com um binóculo as manobras do avião e da luz verde. A mais de 600 km/h, Gorman ascendeu a 2,3 km de altitude. Como se tratava de um vôo de treinamento, as seis metralhadoras de 12,7 mm não estavam municiadas. Prevendo um choque iminente, desviou-se passando a poucos metros abaixo da bola de luz, distinguindo um pequeno e aparentemente sólido objeto no centro. Tentou todas as manobras possíveis, mas cada vez que investia contra ele, o UFO acelerava, afastando-se ou desviando no último instante. Desapareceu a 5,8 km, e o decepcionado Gorman pousou em Fargo com os tanques quase vazios. O piloto garantiu aos investigadores da ATIC que a luz era animada por forças inteligentes.

Projeto Twinkle

Os habitantes de Albuquerque, Novo México – Estado que num raio de 160 km comportava duas instalações que formavam a espinha dorsal do programa de bombas atômicas – Los Alamos e Sandia – começaram a avistar estranhas luzes verdes no final de novembro de 1948. Os membros da USAF em Kirtland, Albuquerque, e do Sign, no ATIC, não deram atenção no início, classificando-as simplesmente como disparos de pistolas Very e foguetes de sinalização, sobras de guerra ainda em poder de milhares de soldados. Diante do crescente número de relatórios, a USAF reconsiderou as luzes, enquadrando-as desta vez na categoria dos meteoritos. Lincoln la Paz, diretor do Instituto de Meteoritos da Universidade do Novo México, conduziu um estudo tentando provar isso, mas teve de admitir que não se tratavam de fenômenos naturais.

O Projeto Twinkle [Cintilação], estabelecido no final do verão de 1949 pelo Laboratório de Pesquisa Cambridge, da USAF, pretendia fotografar as bolas de fogo verdes empregando três câmeras especiais, cineteodolitos, instalados em pontos diferentes perto de White Sands. Os cineteodolitos, filmadoras de 35 mm, registravam o ângulo do azimute e o ângulo da câmara. Se duas ou três câmeras fotografassem o mesmo objeto, seria possível determinar com precisão sua altitude, velocidade e tamanho. Mas o projeto especialmente criado para determinar o que realmente eram terminou em fracasso. Apenas uma câmera foi cedida, e nada jamais foi fotografado. Com o advento da Guerra da Coréia e o desaparecimento das bolas de fogo verdes, o Twinkle acabou encerrado.

Em 15 meses de atividades, ou seja, até 22 de abril de 1949, o Sign investigou 375 ocorrências, 34 das quais classificadas como insolúveis. As restantes foram tidas simplesmente como falsas interpretações de objetos convencionais ou formas moderadas de histeria coletiva, irritando os cidadãos que, de boa fé, haviam colaborado com as autoridades. A reação repercutiu na imprensa e instou a formação de dezenas de organizações ufológicas privadas que decidiram investigar os casos por conta própria.

Projeto Grudge

Em 11 de fevereiro de 1949, antes de seu término e sem qualquer aviso prévio, o Sign foi transformado no Projeto Grudge, codinome que o dicionário define como “rancor, profundo ressentimento ou má vontade”. Com a mudança do termo, mudou-se também o pessoal e a atitude em relação ao fenômeno. A premissa básica do Grudge era a de que os UFOs não existiam. A maioria que se recusou a participar dessa política de encobrimento e ridicularização acabou expurgada.

Tencionava-se aniquilar o Fenômeno em duas fases. Os membros remanescentes iniciaram a primeira, que consistia em explorar o máximo as ilusões de óptica e as falsas interpretações de balões e corpos celestiais. Hynek foi especialmente contratado para legitimar as observações que se enquadrassem nessa categoria. Para a campanha publicitária, o Grudge destacou Sidney Shallet, jornalista do The Saturday Evening Post. Harry Haberer, um dos mais ativos relações públicas da USAF, deveria providenciar-lhe subsídios. Autorizado pelo Pentágono, Shallet visitou o ATIC e sem perder tempo investiu contra os UFOs em um artigo sarcástico publicado em duas partes nas edições de 30 de abril e 07 de maio. Procurando condicionar psicologicamente os leitores com frases e expressões como “o grande susto causado pelos discos”, “tolices” e “terríveis fantasmagorias”, reduziu os UFOs a enganos, trotes ou ilusões e recomendou aos que vissem um cair na Terra, “recolher os cacos, caso pareça seguro”.

O Grudge esperava arrefecer o interesse do público pelos UFOs. O artigo, no entanto, provocou reações totalmente adversas. Em poucos dias, a freqüência das observações atingiu o clímax. A USAF apressou-se em distribuir um release à imprensa, o que só aumentou a confusão. Involuntariamente, Shallet ajudou a implantar a semente da dúvida. A semente germinou e alguns jornalistas colocaram o assunto em pauta. No final do outono de 1949, havia material suficiente para encher um livro. A edição de dezembro da revista de aventuras True, extremamente popular, saiu à frente das outras com a versão de que os UFOs originavam-se do espaço exterior. O artigo “Os discos voadores são reais”, era assinado por Donald Keyhoe (1897-1988), formado pela Academia Naval, veterano da Segunda Guerra, piloto de aviões, oficial aposentado da Marinha, e agora repórter freelancer. Logo no parágrafo inicial, Keyhoe dizia que, após oito meses de intensas pesquisas, concluíra que a Terra vinha sendo escrutinada por seres alienígenas.

O Grudge pretendia estar escrevendo o relatório final sobre o fenômeno. Entretanto, quando os resultados das pesquisas foram entregues à imprensa, logo após o anúncio da dissolução do projeto em 27 de dezembro de 1949, em vez de esfriar o problema, atiçou-o. Um dos apêndices era o estudo de Hynek. Valendo-se dos diários de astronomia, ele e sua equipe concluíram que dos 237 casos, 32% não passavam de corpos celestes. O Serviço de Aerologia e o Laboratório de Pesquisa de Cambridge, apontaram que 12% correspondiam a balões de sondagem meteorológica. Separando as mistificações e confusões, o Grudge eliminou outros 33%. Restaram ainda 23%, ou 56 casos, que a Seção de Psicologia do Laboratório Aeromédico da USAF diagnosticou como resultantes de aberrações psicológicas. O relatório recomendou a interrupção das investigações, pois da maneira como vinham sendo feitas, induzia as pessoas a acreditarem que os UFOs eram plausíveis.

Uma festa religiosa seria realizada em 19 de agosto de 1949 nos terrenos da Igreja de São Pedro e São Paulo, em Norwood, Ohio, próxima a Cincinnati. O vigário responsável tinha adquirido um holofote do Exército, com uma potência de iluminação de oito milhões de velas, para usá-lo durante a festa, e que seria manuseado pelo sargento Donald R. Berger. Na primeira noite, após ligar o holofote e começar a varrer o céu com o mesmo, o sargento surpreendeu-se ao perceber um objeto circular de grandes dimensões, que estava imóvel a uma grande altitude. Vários pequenos objetos foram vistos entrando e saindo voando do objeto maior. Por incrível que pareça, de acordo com os registros da época, o objeto foi visto durante quase sete meses consecutivos, tendo sido fotografado e filmado, além de ter sido visto por milhares de testemunhas. O holofote foi apreendido pelo Exército na noite de 23 de outubro de 1949, tendo sido intimidado o padre e o sargento, este tendo sido obrigado a obedecer às ordens de um general que veio em um jipe militar. O objeto, entretanto, continuou visível até o dia 10 de março de 1950, quando desapareceu e nunca mais foi visto.

A True voltou a impactar o público em março de 1950, desta feita com o artigo “Como os cientistas seguem discos voadores”, escrito pelo comandante Robert B. McLaughlin, oficial de carreira formado em Annapolis, o homem que chefiava uma equipe de cientistas da Marinha na ultra-secreta área de produção e experiência de teleguiados, o campo de provas de White Sands. Suas posições constituíam contradição direta a todas as declarações oficiais dos últimos dois anos. Não somente acreditava ter comprovado a existência dos UFOs como também afirmava que se tratavam de “astronaves de outro planeta, operados por seres inteligentes”. Em diversas ocasiões, nos anos de 1948 e 1949, McLaughlin e seus subordinados em White Sands presenciaram o aparecimento de discos. Até o sóbrio New York Times, que se mantivera afastado da controvérsia, publicou um editorial intitulado: “Discos voadores: são ou não são?”. Em entrevista concedida à imprensa em 04 de abril, o presidente Truman declarou: “Posso afirmar que os discos voadores existem, mas não são fabricados por nenhuma potência terrestre”.

A primeira foto autêntica de um UFO

Para que não restassem mais dúvidas da existência dos UFOs, ainda faltava uma boa fotografia. Esse feito coube a Paul Trent, um agricultor de McMinnville, Oregon. Às 19h30 do dia 11 de maio de 1950, sua esposa alimentava os coelhos no quintal quando avistou um disco metálico deslizando suavemente no céu encoberto. Chamou o marido que pegou a câmera e bateu duas fotos do objeto antes que este desaparecesse a oeste. Os Trent não tentaram vender as fotos, mas apenas as mostraram aos amigos. Os jornais ficaram sabendo e publicaram as imagens um mês depois.

Durante décadas as fotografias foram submetidas a exames detalhados por especialistas diversos, desde oficiais da USAF, passando por fotógrafos da revista Life, profissionais e ufólogos. William H. Spaulding, do Ground Saucer Watch [GSW, ou Observadores Terrestres de Discos], um grupo dedicado ao estudo científico dos UFOs, analisou as fotografias por computador e reafirmou sua autenticidade.

A primeira das fotos tiradas por Trent mostra a forma do UFO, com uma torre central. O realce das bordas mostra essa forma nitidamente, enquanto o contorno confirma a natureza tridimensional do objeto. A segunda foto mostra um UFO em seu formato clássico, de disco. Os testes por computador comprovaram a inexistência de suportes e mostraram claramente a base chata do objeto. Comparações posteriores também confirmaram que o disco estava a pelo menos um quilômetro de distância e que tinha um diâmetro aproximado de 20 a 30 m.

As Luzes de Lubbock

O diretor do Setor de Inteligência da USAF, major-general Charles P. Cabell, ordenou uma revisão do fenômeno. Em princípios de 1951, o Projeto Grudge foi reativado e confiado ao sereno capitão Edward J. Ruppelt, veterano da Segunda Guerra que há seis meses reingressara na USAF. O operador de radar de aviões B-29, indicado pelo tenente-coronel Rosengarten, era o homem certo para a tarefa: não advogava a crença, tampouco se opunha ao assunto. Lotado no Air Technical Intelligence Center – encravada na Base Aérea de Wright-Patterson, em Dayton, Ohio, conhecida pela sigla ATIC, esta base mantinha-se informada sobre todas as atividades estrangeiras no campo das aeronaves e teleguiados –, Ruppelt elaborou formulários-padrão a serem distribuídos a todos os comandos e fez cumprir uma ordem do Pentágono: qualquer avistamento deveria ser imediatamente notificado. Ruppelt confiou a chefia das pesquisas científicas a Hynek e estabeleceu cooperação com a imprensa, emitindo releases e comunicados.

As “Luzes de Lubbock” aquilataram a atenção de Ruppelt. Ao longo de duas semanas, entre agosto e setembro de 1951, centenas de moradores da cidade de Lubbock, no Texas, acompanharam seus movimentos. Às 21h00 de 25 de agosto, um empregado da Comissão de Energia Atômica – a ultra-secreta Sandia Corporation – e sua esposa, comentavam a beleza do firmamento sentados no quintal da casa nos subúrbios de Albuquerque, quando avistaram o que parecia ser um enorme avião, maior do que um B-35, voando rápida e silenciosamente a uma altura de 300 m. A asa, cruzada por faixas negras, era uma “flecha” de ângulos acentuados, em forma de V. Vinte minutos depois, em Lubbock, quatro professores universitários que trocavam idéias na varanda viram uma formação semicircular de luzes riscar o céu em altíssima velocidade. No dia seguinte, a estação de radar do Comando de Defesa Aérea emitiu um relatório negando que seu equipamento houvesse registrado um alvo não identificado movendo-se a 1.500 km/h, uma vez e meia a velocidade dos aviões a jato em uso.

Cinco dias depois, Carl Hart Jr., calouro da Texas Technological, conseguiu fotografar as misteriosas luzes com sua câmera Kodak 35 mm. A noite estava quente, por isso arrastou sua cama para perto da janela, no andar superior da residência. Deitado, assistiu a uma fileira de luzes em formação de V surgir ao norte e cruzar um trecho do céu sem nuvens. Na expectativa de que reaparecessem, carregou a câmera, ajustou a lente e o obturador para f 3.5 e 1/10 de segundo, e saiu para o quintal. Não demorou e as luzes efetuaram a segunda passagem, permitindo que Hart batesse duas fotos. Uma terceira formação apareceu daí a poucos minutos, e o estudante tirou mais três. Logo de manhã, Hart mandou que um amigo, proprietário de uma loja de artigos fotográficos, revelasse o filme. Ruppelt tomou emprestado os negativos e logo que chegou a Dayton, encaminhou-os aos peritos do Laboratório de Reconhecimento de Fotografias do Campo Wright. Os negativos, infelizmente, devido ao excesso de manuseio, estavam muito maltratados, sujos e riscados, de modo que mal se distinguiam os objetos fotografados. Declarou Ruppelt à imprensa: “Não se provou que fossem uma fraude, tampouco que fossem genuínos”.

Projeto Blue Book

A “política de abertura” conduzida por Ruppelt contribuiu para que 1952 fosse o grande ano dos UFOs, com 1.501 depoimentos. A média de registos pulou de aproximadamente 10 para 20 ao mês. Em março, todavia, o Grudge nada mais era do que um plano dentro de um grupo. Naquela primavera, ante a iminência de serem engolfados por uma gigantesca onda de UFOs em formação, os oficiais da USAF decidiram expandir o Grudge e transformá-lo em Projeto Blue Book, legitimado pelo documento nº 220-5. O nome foi sugerido por Ruppelt, que o tirou dos livros de testes de colégios. Os colegiais, tal como a comissão da USAF, regurgitavam perguntas difíceis de responder.

O ofício, com o timbre e a assinatura do secretário da USAF, classificava os UFOs como um assunto sério e determinava aos comandantes de todas as bases aéreas que encaminhassem relatórios ao ATIC e ao Pentágono. Os investigadores do Blue Book tinham autorização para entrar em contato direto com qualquer unidade da USAF sem prévias ordens superiores. A infra-estrutura englobava uma rede composta por todas as estações de radar norte-americanas espalhadas pelo mundo e o Grupo de Observadores Terrestres do Comando da Defesa Aérea.

A popular revista Life incumbiu um grupo de pesquisadores de escrever um artigo definitivo sobre os UFOs no início de 1952. Essa equipe contou com a cooperação de Ruppelt, que abriu os arquivos e permitiu acesso a relatórios confidenciais. “Temos visitantes do espaço?” gerou um impacto sem precedentes no público norte-americano ao fornecer detalhes de 10 casos inéditos, impossíveis de serem explicados pela ótica convencional. A USAF evitou comprometimentos, limitando-se a dizer que “As conclusões da Life são de inteira responsabilidade da revista”. Sobrecarregada, a equipe de Ruppelt não dava conta de classificar e arquivar tantos relatos. Somente uma porcentagem mínima era investigada. O New York Times informou que o “trabalho regular fora afetado”.

A USAF lançou um apelo dramático à população em abril de 1952: assinalar tudo aquilo que se via no céu. Após tantos anos de negativas, os discos voadores voltavam à atualidade, precisamente no ano em que houve a grande onda de UFOs. Mergulhados na histeria macartista, os Estados Unidos debatiam a necessidade de continuar mantendo relações com a União Soviética na base da desconfiança recíproca. Já bastante consistentes eram as forças que propugnavam a futura linha de coexistência pacífica. A confrontação tornou-se mais grave em 1952, provocando fraturas insanáveis nos serviços secretos e no Pentágono. Nesses centros de poder prevalecia a linha dura, que adjudicava o rearmamento do país ante o crescimento da força militar soviética.

UFO sobre usina atômica

Ao entardecer de 21 de junho de 1952, um UFO pairou sobre a usina atômica de Oak Ridge, uma instalação ultra-secreta onde se testavam equipamentos nucleares. O alarme soou e um caça F-47 Thunderbolt, em vôo de treinamento, desviou sua rota rumo ao local. O F-47 havia sido largamente usado durante a Segunda Guerra, mas como era robusto e veloz – 680 km/h –, continuava em operação. O piloto, embora com suas oito metralhadoras de 12,7 mm descarregadas, mergulhou sobre o intruso. Os observadores em terra assistiram a um emocionante duelo de manobras e perseguições. Cada vez que o caça tentava interceptar a bola de luz, esta se desviava no último segundo.

Num período de seis meses, Ruppelt colecionou 16 mil recortes de jornais. Quando a onda parecia estar se acalmando, surgia um novo relato e a tempestade recomeçava. Na manhã de 02 de julho, o major Delbert C. Newhouse, perito fotográfico da Marinha de Guerra, e sua esposa, viajavam de automóvel nas proximidades de Tremonton (Utah), atentos a uma formação de 12 ou 14 UFOs que se deslocava a grande altura. Às 11h10, os objetos se destacavam contra o céu azul como pontos brilhantes e circulares. Por trabalhar no Depósito de Abastecimento da Aviação Naval de Oakland, Newhouse estava familiarizado com todo tipo de aviões. Inteligindo a natureza não identificada dos objetos em questão, parou o carro e apontou-lhes uma câmera Bell & Howell de 16 mm, com teleobjetiva e um rolo de filme de 12 m. Newhouse encaminhou o filme, por intermédio da Marinha, ao Blue Book. Os laboratórios do ATIC descartaram qualquer possibilidade de fraude.

Às 20h10 de 14 de julho, perto de Norfolk, Virginia, o piloto e o co-piloto de um DC-4 da Pan American, voando a 2.500 m de altitude na rota Nova York-Miami, viram seis objetos rubros, cada qual com cerca de 30 m de diâmetro. “Seus contornos eram bem definidos, e nada tinham de fosforescente ou pouco nítidos”, declarou o capitão William Nash. Enquanto ele e o co-piloto William Fortenberry olhavam embasbacados os seis discos em formação de cunha, surgiram dois mais a cerca de 600 m acima da Baía de Chesapeake. Suas bordas tinham cerca de quatro metros de espessura e as superfícies superioras eram planas. Os pilotos transmitiram um relatório à Aeronáutica e às 07h00 da manhã seguinte foram chamados para prestar esclarecimentos. Ao final de duas horas de interrogatórios, ambos souberam que outros grupos na área também os tinham avistado.

UFOs invadem Washington

Os radares do Aeroporto Nacional de Washington, a poucos quilômetros da Casa Branca, captariam UFOs quatro dias depois. O fato sobrepujou a Convenção Democrática Nacional nas manchetes dos jornais, incitando tal furor que Ruppelt foi inundado por perguntas que partiam da imprensa de países como Canadá, México e Londres e até do gabinete presidencial dos Estados Unidos. De acordo com o livro de registro do aeroporto, os primeiros UFOs surgiram às 22h30 da noite de 19 de julho. Dois radares captaram a leste e ao sul da Base de Andrews, oito alvos não identificados que viajavam a 160 ou 210 km/h e aceleravam bruscamente.

Aos 40 minutos de 20 de julho, sete blips [Pontos luminosos] bem definidos apareceram numa das telas principais do radar, operada desde a meia-noite pelo controlador Ed Nugent, o qual imediatamente encarregou outros dois operadores, James Cupeland e Jim Ritchey, de avisar o chefe do setor, Harry G. Barnes, que por sua vez se comunicou com o operador da torre de controle, que confirmou a presença dos mesmos ecos em suas telas de radar. Os pontos brilhantes se separaram. Dois rodeavam a Casa Branca e um deles o Capitólio, zonas de vôo proibidas. Às 03h00, Barnes alertou o Comando de Defesa Antiaérea e a Base da Força Aérea de Andrews Field, situada no Estado de Maryland e separada de Washington pelo Rio Potomac. Meia hora depois, caças F-94 sondaram o aeroporto, sem nada encontrar. Mas assim que os jatos se foram, os sinais luminosos reapareceram nas telas dos radares, movendo-se lentamente até o dia raiar. A notícia vazou, e ante a pressão do público, a imprensa e o Congresso exigiram ação da USAF.

Apenas uma semana depois, em 26 de julho, os UFOs despontavam novamente em Washington. Nas últimas horas da tarde desse dia, um objeto voador que irradiava uma luz avermelhada pairou sobre a Base Aeronaval de Key West, na Flórida, sendo testemunhada por mais de 40 pessoas, entre civis e militares, e perseguido por uma esquadrilha de destróieres. Às 20h08, uma formação voando a grande altitude, razão por que a população não pôde contemplá-la, invadiu o espaço aéreo de Washington. Tal como da vez anterior, os operadores do Centro de Tráfego Aéreo acompanharam as evoluções nas telas dos radares e Harry Barnes consultou a torre de Andrews, que confirmou. Às 23h00, Barnes contatou o Pentágono, e às 23h25 um par de F-94 chegou à capital. Após 10 minutos de buscas infrutíferas, os interceptadores retornaram à base. Às 03h20, outra dupla de F-94 teria mais sorte. O piloto William L. Patterson reportou quatro luzes cercando seu avião antes que se afastassem em grande velocidade.

O principal investigador do Pentágono, o major Dewey Fournet, acompanhado do chefe de Imprensa, Albert M. Chop, e de um especialista em radar, acorreram ao local recusando-se a fazer comentários ou suposições a respeito. Durante dois dias, os jornais atacaram a USAF e exigiram maior transparência. Em seu editorial, o Rocky Mountains News, de Denver, Colorado, repudiou as atitudes de encobrimento: “É tão inacreditável como aterrador o fato da USAF, com todos os recursos que possui, não ter podido ainda identificar tais objetos. Se os assim chamados ‘discos’ constituem uma descoberta submetida a segredo militar, é hora de nos despojarmos desta crosta de segurança em benefício da inocência nacional. Já existem bastantes perigos reais no mundo para termos de enfrentar perigos imaginários e desnecessários”.

Conferência de Imprensa

Assessorado por um grupo de especialistas em UFOs do ATIC – entre os quais se encontravam o coronel Donald L. Bover, do Departamento de Investigações Técnicas, o capitão Roy L. James, especialista em vôos, o capitão Ruppelt, o major-general Roger M. Ramey, B. L. Griffing, vários técnicos em eletrônica e o chefe do Comando de Defesa Aérea –, o major-general John A. Samford fez um pronunciamento à imprensa em 29 de julho. Para agravar a situação, na manhã desse dia numerosos oficiais do Exército e da Polícia de Indiana testemunharam um impressionante e misterioso “combate aéreo”, e poucas horas a seguir, um UFO sobrevoou a usina nuclear de Los Alamos, desaparecendo assim que chegaram os jatos interceptadores.

A conferência estava marcada para às 16h00, mas às 15h30 o salão já não comportava mais ninguém. Os mais prestigiosos representantes do jornalismo norte-americano disputavam os melhores lugares. Samford, porém, jogou um tremendo balde de água fria ao dizer que os avistamentos das últimas duas semanas haviam sido causados por inversões de temperatura. Uma mentira deslavada, pois Ruppelt revelou em seu livro que o Blue Book classificou-os como “inexplicáveis”. Menos de seis horas depois da entrevista e antes que os jornais chamassem os UFOs de fenômenos naturais, um deles cruzou a fronteira do Canadá e penetrou em Michigan. Às 21h40, uma estação de radar do Comando da Defesa Aérea desse Estado captou o alvo que avançava a 1.000 km/h diretamente para a Baía de Saginaw, no Lago Huron. Um F-94 perseguiu-o inutilmente até que se visse com o combustível quase esgotado.

Passava pouco mais da meia-noite de 05 de agosto quando dois operadores de rádio da Base Aérea de Haneda dirigiram-se à torre de controle onde substituiriam os colegas do turno da noite. Enquanto caminhavam tranqüilamente pela pista de concreto, viram uma luz pairando sobre a Baía de Tóquio. Apressaram os passos e ao chegarem à torre constaram que seus colegas perscrutavam-na através de binóculos. A esfera, rodeada por um objeto quatro vezes maior, vinha em direção à Base Aérea. Alarmados, os operadores telefonaram para a estação de radar e foram informados de que a coisa luminosa, fosse o que fosse, aparecia nitidamente nas telas. Um F-94 da USAF decolou da Base Aérea de Johnson, situada nas proximidades, mas o objeto não permitiu que chegasse perto o bastante para que disparasse suas armas. Os operadores viram o “objeto” dividir-se em três partes, afastando-se cada qual em uma direção diferente a grande velocidade.

Os efeitos da Conferência de Imprensa em Washington se fizeram sentir, pois o número de casos caiu de quase 550 em julho para 175 em agosto, se bem que esse número ainda superasse em muito a média normal de 25 por mês. Mostrando vitalidade, a onda voltaria a crescer e atingiria um novo clímax em setembro de 1952. Relatos chegavam de todo o sudeste norte-americano, principalmente dos Estados da Geórgia – com destaque para os ocorridos nas proximidades dos recém construídos e ultra-secretos laboratórios da Comissão de Energia Atômica em Savannah River – e do Alabama. Mais da metade deles foram classificados como “inexplicáveis”.

As forças navais da North Atlantic Treaty Organization [Organização do Tratato do Atlântico Norte, OTAN], manobraram ao longo das costas da Europa no final de setembro em prosseguimento a Operação Mainbrace [Apoio Continental]. Em 20 de setembro, um repórter norte-americano que fotografava uma decolagem a bordo de um porta-aviões no Mar do Norte, notou um grupo de pilotos e mecânicos de pista parados no tombadilho. O que eles contemplavam, todavia, não era uma aeronave convencional e sim uma esfera metálica. Aproveitou para bater diversas chapas, nas quais procurou enquadrar não só o UFO como também a estrutura do porta-aviões. No dia seguinte, seis pilotos da Real Força Aérea [Real Air Force, RAF] voando em formação sobre o Mar do Norte, viram um objeto esférico e brilhante rumar para a área da Operação Mainbrace, sem conseguir interceptá-los. No terceiro dia consecutivo, um UFO apareceu perto da frota, desta vez sobre o Aeródromo Topeliffe, na Inglaterra. Um jato logrou chegar perto o suficiente para ver que o objeto era “redondo, prateado e branco” e parecia “girar ao redor de seu eixo vertical”.

A Inglaterra explodiu sua primeira bomba atômica em 01º de outubro. Em dezembro, os Estados Unidos iriam explodir a primeira bomba H, desenvolvida pelo Projeto Ivy. Elementos do Pentágono supunham que seres, terrestres ou não, andavam interessados nas atividades norte-americanas no Pacífico e encarregou o Blue Book de obter transporte para a zona de testes, estabelecer uma rede de informações, instruir o pessoal a elaborar relatórios e analisá-los no próprio local. Entretanto, nenhum UFO foi visto durante a série de explosões atômicas do Projeto Ivy.

CIA

Em 11 de setembro de 1952, o Comando da Espionagem Científica da CIA entregou ao seu diretor um relatório em que especificava os objetivos da espionagem em relação aos UFOs: “Verificar: o nível atual dos conhecimentos dos russos sobre esses fenômenos; prováveis intenções e possibilidade dos soviéticos aproveitarem esses fenômenos contra a Defesa dos Estados Unidos; motivos do silêncio da imprensa soviética sobre os discos voadores”.

No início de 1953, a USAF e a CIA atinaram que os UFOs representavam ameaça à segurança nacional. A CIA alertou que os soviéticos poderiam aproveitar uma onda de avistamentos e deslanchar um ataque aéreo contra os Estados Unidos. Em seu último livro, Aliens from Space [Alienígenas do Espaço Sideral], o major Donald E. Keyhoe apontou a CIA como o “verdadeiro poder invisível” por trás do Fenômeno UFO. A autoridade da CIA se estendia sobre os Departamentos de Inteligência de todas as organizações militares dos Estados Unidos, exercendo controle total sobre a Administração da Aviação Federal, a Guarda Costeira, a Comissão Federal de Comunicação e demais instituições do governo, com exceção do FBI.

Desde a sua criação em 1947, a CIA controlou estreitamente o Fenômeno UFO e as operações da USAF. Afinal, sua função não era a de reunir informações, proteger os interesses norte-americanos e combater as organizações e movimentos subversivos nos países estrangeiros? Em abril de 1952, Dan Kimball, secretário da Marinha, viajava para o Havaí quando dois discos acompanharam o seu avião. “Meus pilotos calcularam que voavam entre 2.400 e 3.200 km/h. Deram duas voltas ao nosso redor e se afastaram na direção leste. Havia um outro avião da Marinha atrás de nós, levando a bordo o almirante Arthur Radford […] Os discos também rodearam-no, cobrindo os 90 km que nos separavam em menos de dois minutos”. Assim que aterrissaram no Havaí, o secretário enviou uma mensagem de rádio à USAF. Regressando a Washington, soube por meio de um assistente que o haviam proibido de comentar qualquer coisa a respeito com quem quer que fosse. A USAF lamentaria o erro, pois Kimball não era um homem facilmente influenciável. De imediato, ordenou que a Marinha iniciasse uma investigação particular do Fenômeno UFO, o que incluiu a análise, três meses depois, do Caso do Major Delbert C. Newhouse, autor do “Filme de Utah”. A Marinha, tal como o ATIC, considerou-o autêntico.

A CIA empenhava-se firmemente em ocultar os UFOs, quando seu diretor R. H. Hillenkoetter – promovido a vice-almirante e nomeado primeiro diretor da agência por Truman – tomou conhecimento das atitudes da Marinha capitaneadas por Kimball. A CIA pensou em recorrer ao presidente Truman, solicitando-lhe que repreendesse o insubordinado almirante, porém, desistiu da idéia por temerem uma reação escandalosa de Kimball, decidindo esperar pela eleição presidencial de novembro. A vitória do general Eisenhower aliviou a CIA, já que Kimball seria inevitavelmente substituído por um republicano.

Com o intuito de evitar novos atritos, a CIA assumiu a rédea do fenômeno, deslocando a USAF e estabelecendo estreita censura. Convocou uma reunião em que tomariam parte os coronéis William A. Adamns e Wesley S. Smith, do Serviço de Inteligência, o major Dewey Fournet, do Estado-Maior, que atuava como supervisor do Projeto Blue Book, o capitão Edward J. Ruppelt e outros oficiais da USAF, Albert M. Chop, adido oficial de Imprensa para o assunto dos UFOs, e um general da Base Aérea de Wright-Patterson.

Sem que a CIA suspeitasse, seis semanas antes o major Fournet – que nesse ano de 1952 se destacara na avaliação de centenas de relatórios – e outros oficiais do Estado-Maior da USAF, incluindo Keyhoe, convencidos de que o segredo deveria acabar, trabalharam secretamente em um plano para desvendar o Fenômeno UFO perante o público. Em uma conferência de imprensa, marcada com poucas horas de antecedência para evitar intervenções, projetariam aos jornalistas o Filme de Utah e a seguir exporiam uma documentação indiscutível, corroborada por indícios materiais, testemunhas fidedignas e registros de radar. Teriam feito isso até o final do ano se não fossem intimados pela CIA a comparecerem à reunião iniciada em 12 de janeiro de 1953 e conduzida pelo cientista Marshall Chadwell e pelos agentes Philip G. Strong e Ralph L. Clark. Após cinco dias de discussões, a Agência ratificou que se opunha à divulgação de informações sigilosas.

O grupo de Fournet não deixou transparecer suas intenções, e em fevereiro anunciaram a conferência extraordinária de imprensa. Pareciam a ponto de triunfar, mas a CIA mobilizou-se mais do que rapidamente e, do Pentágono, Albert Chop lamentou-se com Keyhoe: “Arruinaram nosso programa. Puseram em execução uma campanha nacional maciça de acobertamento”.

A CIA exerceu pressões sobre militares, aviadores, cientistas, altos funcionários do governo, cidadãos e até membros do Congresso. Pressões que, no caso de Ruppelt, redundaram na deterioração progressiva de sua saúde e no colapso cardíaco que o vitimou. Na reserva, Ruppelt escrevera o livro The Report on Unidentified Flying Objects [Relatório sobre os UFOs], que abalou os censores pela quantidade de acusações contra a CIA. Nas cartas dirigidas a Keyhoe, reafirmou que se opunha ao sigilo e que nunca se enquadrara nos ditames oficiais. Em represália, a USAF cortou os contratos firmados com sua empresa aeroespacial e o obrigou a repudiar o conteúdo do livro. Ruppelt teve de acrescentar três capítulos na parte final rejeitando todas as provas e ridicularizando testemunhas idôneas, algumas das quais tinham se tornado seus amigos pessoais. Uma delas era o comandante D. J. Blanqueslee, piloto que durante a Segunda Guerra Mundial perseguira sobre o Japão um UFO com luzes giratórias nas cores verde, vermelha e branca.

Concomitantemente, a CIA convidou cinco reputados cientistas alheios à polêmica UFO para um simpósio em Washington. O grupo, presidido por H. P. Robertson, físico e especialista em armas do Instituto de Tecnologia da Califórnia [California Institute of Tecnology, Caltech], contou com o prêmio Nobel Luís W. Alvarez, professor de Física da Universidade de Berkeley, que desempenhara papel fundamental no desenvolvimento da bomba atômica, Samuel A. Goudsmit, decano do Departamento de Física dos laboratórios nacionais de Brookhaven, que trabalhara com Albert Einstein, o geofísico Lloyd V. Berkner, presidente da Associated Universities, o astrônomo Thornton L. Page, da Universidade John Hopkins, além de funcionários do Serviço Informativo da Aeronáutica Militar e da CIA, agência que controlava e dirigia toda a Operação John Doe.

Durante os dois dias do simpósio – 14 e 15 de janeiro de 1953 –, foram analisados 75 relatórios – com atenção especial para oito deles – e dois negativos de filmes coloridos. Após 12 horas de discussões, os cientistas chegaram ao consenso de que os UFOs por si não ofereciam risco à segurança nacional, mas “uma ênfase continuada na divulgação desses fenômenos resulta, de fato, em ameaça”. Persuadidos pelo discurso de “caça às bruxas”, recomendaram que o Blue Book se preocupasse em acalmar o público, que as agências governamentais fomentassem uma campanha publicitária para “despojar o Fenômeno UFO de seu status especial e eliminar sua aura de mistério”, que os educadores delineassem um programa de “treinamento e desmascaramento”, e que os grupos ufológicos privados fossem vigiados de perto, pois poderiam ser usados para “propósitos subversivos”.

A CIA impôs à Comissão Robertson a minimização da importância dos UFOs. Um relatório de 1967 informa que foi constituída nos Estados Unidos uma comissão de “enorme importância” cuja tarefa consistia em “determinar, com a maior exatidão e de modo realista, a natureza dos problemas que os Estados Unidos teriam de resolver se fosse instaurado no mundo uma situação de paz estável e traçar um programa para enfrentar semelhante conjuntura”. No programa, fala-se das prevenções ante uma ameaça extraterrestre. Soube-se que ele fora produzido por um grupo de estudiosos remunerados pela CIA, e que o misterioso John Doe, pseudônimo por trás do qual o responsável pelo relatório escondia o estudioso que lhe entregara os documentos devido a “uma crise de consciência”, não passava do nome em código de uma operação secreta da CIA. Doe havia servido, durante a Segunda Guerra, como nome de cobertura para uma operação organizada pelo Departamento de Estado em 1940 para manter a paz com o Japão.

Ao contrário do que sugeria o Relatório Robertson, o Blue Book não veio a desempenhar uma tarefa pedagógica, porque rebaixada à condição de virtualmente inexistente. O capitão Ruppelt deixara o Projeto em fevereiro nas mãos do tenente Bob Olsson. A essa altura, o quadro de funcionários estava reduzido à figura do soldado de primeira classe Max Futch. Ruppelt regressou ao ATIC, mas em julho foi chamado de volta com ordens para “fazê-lo funcionar”. Entretanto, conta Ruppelt, “sempre que solicitava mais auxiliares, tudo que obtinha era um polido ‘sinto muito’ ”. O Blue Book tornou-se assim um mero repositório de registros. Em março de 1954, Ruppelt deixou não só o Projeto como também a USAF, passando o comando ao soldado Max Futch.

JANAP

No dia 10, a Junta de Comando das Forças Armadas publicava a Joint Army Navy Air (JANAP) – redigida secretamente pela USAF em setembro de 1951 e liberada em 12 de dezembro de 1953 – por meio de uma circular avalizada pelos chefes dos Estados-Maiores das três armas, conforme revelou Keyhoe em The Flying Saucers Conspiracy [Conspiração dos Discos Voadores]. A carta de promulgação diz: “Este documento contêm informação que afeta a defesa nacional dos Estados Unidos, dentro dos significados das Leis de Espionagem, título 18, U.S.C., seções 793 e 194. A divulgação de seu conteúdo por qualquer pessoa não autorizada é proibida por lei”. Na instrução 201, a JANAP-146 exige a comunicação imediata, precedidos pelo sinal de urgência internacional, prioridade ou emergência militar, e na 206, ordena que sejam transmitidas ao Comando de Defesa Aérea ou ao comando militar mais próximo. Pelas prescrições da JANAP, centenas de pilotos que avistaram UFO foram implacavelmente silenciados. E em dezembro, a Junta do Estado-Maior decretou que toda divulgação não-autorizada atentava contra a Lei de Espionagem, o infrator ficando sujeito a US$ 10 mil de multa ou até 10 anos de prisão [Seção III, 783, título 18, Código dos Estados Unidos].

A circular AFR 200-2, de 12 de agosto, normatizava a interceptação de UFOs. “A 402A Esquadrilha Aérea deve ser alertada o mais rapidamente possível a fim de que possa intervir”. Essa ordem estendia-se também aos pilotos civis. No item 9, lemos: “Os quartéis da USAF publicarão sumários das avaliações de dados que servirão para informar o público a esse respeito. Nos inquéritos locais, é permissível informar os representantes dos meios de divulgação, quando o objeto for positivamente identificado como familiar – vide parágrafo 2b –, excetuando-se os seguintes tipos de informes que não serão revelados: nomes, interceptações, processos de investigações e dados secretos de radar. Para os objetos não explicáveis, somente o ATIC analisará os dados em função das muitas incógnitas envolvidas”.

As diretivas produziram o efeito desejado no âmbito das agências governamentais, mas não impediram que as pessoas continuassem a ver e relatar coisas estranhas no céu. O fenômeno fincara-se inextirpavelmente na alma da cultura norte-americana. Em outubro de 1953, Keyhoe havia lançado Flying Saucer from Outer Space [Discos Voadores do Espaço Sideral], que em poucas semanas figurou na lista dos best-sellers. A contrapartida veio com Flying Saucers Myth-Truth-History [Discos Voadores: Mito, Verdade e História], de Menzel, um desmentido erudito editado pela Universidade de Harvard. A Look comprou trechos do livro de Keyhoe. A USAF, receando que sua publicação desencadeasse uma nova febre de UFOs, obrigou a revista a incluir desmentidos e contestações de cientistas e militares.

A Onda de 1954

Os UFOs não deixaram de aparecer nos Estados Unidos durante a Onda Européia. As notificações ao Blue Book estavam abaixo da média, mas houve casos notáveis. Desde o mês de maio, um estranho objeto costumava sobrevoar a pequena Vila de Rio Vista, na Califórnia. As informações obtidas definiam o UFO como tendo a forma de um charuto, ou, mais propriamente, de um dirigível, com um diâmetro máximo de um metro e um comprimento aproximado de 4 m. O objeto tinha uma luz vermelha de sinalização e movia-se sem emitir qualquer ruído. Ao tomar conhecimento do assunto, a imprensa procurou a autoridade policial que melhor informação pudesse prestar. Encontrou o “subsherif” John Cruz, de Fairfield, que informou aos jornalistas que, depois de receber diversas notícias a respeito do estranho objeto, resolveu investigar pessoalmente. Em 22 de setembro de 1965, inquiriu os residentes e desses recebeu a informação de que o UFO aparecia, geralmente, perto da torre da caixa d’água localizada a cerca de oito quilômetros da cidade.

Naquela noite, mais de 300 pessoas permaneceram atentas e silenciosamente na escuridão, sobre uma pequena colina da qual se avistava a torre da caixa d’água. Depois de alguma espera, apareceu um estranho objeto vermelho e brilhante movendo-se lentamente a apenas 60 m acima da copa das árvores. Descartou-se a possibilidade de uma brincadeira feita com um dirigível ou um balão inflado de gás, pois na ocasião alguns rapazes armados com espingardas calibre 22 fizeram vários disparos em direção ao objeto. A distância era pequena e as balas atiradas, ao se chocarem com o UFO, emitiam o ruído característico de tiro em metal. Ao mesmo tempo, o local atingido brilhava mais intensamente por alguns segundos. O tiroteio, entretanto, não impediu que de quando em quando o objeto voltasse para o mesmo local.

Os radares da Base Aérea de Griffiss, Nova York, detectaram em 01º de julho um “intruso” voando a grande altitude. Um jato interceptador F-94 decolou e, minutos depois, topou com um gigantesco disco metálico. De repente, o piloto e o operador de radar perderam contato pelo rádio e momentos mais tarde telefonaram para a base contando o que acontecera: assim que se aproximaram do disco, todos os sistemas da aeronave pararam de funcionar. “Era como se algo tivesse, pura e simplesmente, desligado nosso avião”. Não podendo mais controlar o avião, acionaram o assento ejetável e desceram de pára-quedas em uma fazenda. O F-94, descontrolado, estatelou-se sobre uma casa matando quatro pessoas. A imprensa local não perdoou a USAF, que alegou falhas técnicas e indenizou os familiares das vítimas sem esclarecer os reais motivos do que simplesmente classificou como “acidente”.

O ano de 1954 terminou com uma declaração do presidente Eisenhower em 19 de dezembro: “Os discos voadores existem somente na imaginação daqueles que os vêem”. Em 01º de janeiro de 1955, o que restava do pessoal do Blue Book – duas pessoas – cedeu lugar ao “4202d A. I. Squadron”, corpo especial criado na Segunda Guerra para arrancar informações de pilotos prisioneiros e executar “simulações”, e que já havia colaborado com o Projeto a pedido de Ruppelt.

Um grupo do governo, em meados dos anos 50, chegou a recomendar que o Conselho de Segurança Nacional familiarizasse o povo com os UFOs recorrendo aos meios de comunicação de massa, à publicidade, aos grupos de ação cívica e até aos estúdios Walt Disney. Recomendou também que organizações civis de pesquisas de UFOs fossem vigiadas em suas atividades supostamente subversivas. A CIA, por sua vez, censurava a si mesma, expurgando qualquer referência nos relatórios que produzia.

Incidente em Socorro

O major Hector Quintanilla sucedera ao tenente-coronel Robert Friend no comando do Blue Book no início de 1964. Concomitante a tensão que se sentia em certos meios com o acirramento da Guerra Fria, um caso particular mobilizou a USAF, que destacou investigadores do seu departamento em Ohio, entre eles o astrofísico Josef Allen Hynek. Se até então Hynek mantivera uma postura desfavorável aos UFOs, a partir do caso que descreveremos a seguir sua opinião caminharia definitivamente em direção ao ponto de receptibilidade no qual reformularia totalmente seus pensamentos. “Apesar do meu grau de desejo de encontrar uma explicação natural para a observação – eu ainda não estava convencido da existência de contatos imediatos do terceiro grau –, não fui capaz de encontrar; assim, este caso está classificado no Blue Book como não identificado”.

O caso ocorreu em 24 de abril de 1964, na região de Socorro, Novo México. Por coincidência, um agente do FBI encontrava-se no local no momento em que o incidente fora reportado. Este telefonou para o oficial de dia de White Sands, o qual por sua vez telefonou ao capitão Holder, comandante daquela unidade. A presença do agente levou a Polícia de Socorro e os militares de White Sands a tratarem seriamente o caso.

A testemunha principal, o policial Lonnie Zamora, foi imediatamente entrevistado e um relatório ficou pronto à 01h00 da manhã do dia seguinte. Transcrevemos aqui sua declaração: “Por volta das 17h45, enquanto perseguia um carro com excesso de velocidade em direção norte na Estrada US 85, ouvi de repente um estrondo e vi chamas no céu, a cerca de um quilômetro a sudoeste. Lembrei-me de que existia naquela direção um paiol de dinamite que podia ter ido pelos ares, pelo que deixei de perseguir o carro e tentei dirigir-me para lá. A chama que vi no céu era azulada e cor-de-laranja, e ia descendo lentamente. Como continuei a guiar não pude olhar a chama, mas pareceu ser estreita, em forma de funil, mais estreita em cima do que em baixo, sendo a sua altura o quádruplo da sua largura”.

Depois de andar por um caminho pouco frequentado e de sentir considerável dificuldade em tentar guiar o seu carro por uma encosta coberta de cascalho, disse que olhou em volta, à procura da cabana de dinamite, mas não se lembrava onde ficava. Notou então um objeto brilhante, a uns 150 m ao sul, que pensou ser um carro virado: “Pensei que talvez algumas crianças o tivessem virado. Vi então duas pessoas vestidas com uma roupa branca, que se encontravam muito perto do objeto. Uma das pessoas olhou diretamente para o meu carro e se espantou, pois deu um salto. Nessa altura, aproximei-me de carro até eles, com a intenção de ajudá-los”. Zamora desceu com seu carro até a base do barranco. Estacionou próximo e seguiu a pé, e ficou impressionado quando viu que aquilo não era um carro, e sim um objeto branco em forma de ovo, liso, sem portas nem janelas, com cerca de 4,5 m de comprimento, pernas de aterrissagem e uma insígnia gravada na fuselagem. A insígnia era uma seta apontada para cima, envolta por um semicírculo. Os seres eram parecidos com “anões” ou “crianças grandes”.

Zamora voltou para o carro e contatou o xerife pelo rádio, dizendo que tinha presenciado um acidente e que ia estar ocupado por uns momentos. “Mal me virei, ouvi de novo o rugido, primeiro em baixa freqüência, depois foi aumentando até que apareceu uma chama debaixo do objeto, e este começou a erguer-se. A chama era azul clara e alaranjada na parte inferior. Da posição em que estava, avistei a parte lateral do objeto. Pelo barulho que fazia, parecia que ia explodir. A chama saía do meio do objeto, e não soltava fumaça. Havia apenas poeira na zona adjacente. Virei-me e fugi para longe, mas tropecei. Os óculos caíram no chão, mas continuei a correr. Olhei para trás e vi que o objeto se erguia a uns seis metros do chão. Escondi-me e parei quando deixei de ouvir o barulho. Estava assustado, e tencionava continuar correndo. Deitei no chão e tapei a cara com os braços. Olhei e vi que o objeto se afastava mantendo a mesma altura e passando rente ao abrigo de dinamite. O objeto deslocava-se rapidamente, e finalmente desapareceu por trás dos montes. Já não tinha chama, nem fazia qualquer ruído”.

O sargento Chavez, da Polícia do Novo México, acorreu em resposta ao chamado de Zamora, constatando depressões leves no solo arenoso e o mato queimado. Quando Hynek e sua equipe visitaram o local, alguns dias já tinham transcorrido e os curiosos feito o seu papel. Felizmente, os primeiros investigadores que ali chegaram poucas horas depois do sucedido, haviam posto pedras à volta das marcas da aterrissagem, preservando-as. A profundidade das marcas era de apenas 10 cm. Análises do solo não revelaram radiações acima do nível normal. O mato queimado não trazia nenhuma substância química que indicasse o tipo de propulsão da nave. O relatório concluiu que “Não se obteve nenhuma prova de que o objeto fosse extraterrestre ou que representasse ameaça à segurança dos Estados Unidos”.

Um ofício encaminhado ao comandante Eric T. de Jonckhekre, coronel da USAF, prestava os seguintes esclarecimentos: “A possibilidade de um veículo de pesquisa estar envolvido na observação de Socorro foi investigada. O Departamento de Ligações do Exército foi contatado e o caso foi discutido pormenorizadamente com eles; contudo, disseram não conhecer nenhum veículo de pesquisa do Exército que deixasse marcas como as de Socorro. O tenente coronel Conkey e o major H. Mitchell também foram consultados. Ambos estavam a par do caso antes da nossa discussão. Nenhum deles, porém, tinha conhecimento de um veículo desse tipo na Base de Holloman. Bell Aircraft Corporation foi indagada no que diz respeito a um veículo de aterragem lunar que deixaria no solo impressões parecidas com as encontradas em Socorro. Um desses veículos foi entregue à USAF em Edwards. Entretanto, não está operacional e não será testado até fins de junho. Foram enviadas 15 cartas a companhias industriais indagando em que fase se encontram suas pesquisas para o desenvolvimento de módulos lunares. Até agora, as informações recebidas dessas companhias não serviu para solucionar o caso”.

Durante a Guerra do Vietnã, em 1965, baterias antiaéreas soviéticas instaladas em Hanói dispararam contra um UFO, que por sua vez respondeu ao fogo com um raio que causou 200 mortos. Esse foi um dos casos revelados com a abertura dos arquivos secretos da KGB, em junho de 1996. Outro documento, assinado pelo responsável pelo programa espacial soviético, Sergei Koroliev, em resposta a uma solicitação do ditador Joseph Stálin, afirma que “os UFOs são uma arma misteriosa dos adversários ocidentais da União Soviética e portanto não representam um perigo para a segurança da pátria”.

Contatos com UFOs no espaço

Na segunda metade dos anos 50, após mais de 60 anos de pesquisas, os engenheiros astronáuticos estavam finalmente em condições de construir o primeiro objeto que deixaria a Terra. Em 04 de outubro de 1957, os soviéticos saíam na frente com o Sputnik I, lançado da Base de Baikonur, a 2.000 km de Moscou, por um enorme foguete de três estágios. Simultaneamente aos lançamentos do Sputnik e do Explorer, registraram-se um grande número de avistamentos de UFOs. É deveras curioso constantar que as principais ondas de UFOs do século XX ocorreram nos anos de intensas atividades missilísticas e sobretudo espaciais. Em 1957 subiram dois satélites; em 1958, cinco; em 1959, 13, e em 1960, 24. Nas décadas seguintes, os satélites para observações meteorológicas, orientação da navegação aérea e marítima e telecomunicações, foram se multiplicando.

Não obstante, colocar um homem no espaço era um projeto inadiável. Em 12 de abril de 1961, a União Soviética lançava o Vostok, com Iuri Gagarin a bordo. A cápsula permaneceu 108 minutos em órbita e regressou sem nenhum problema. Em 10 de setembro subiu Titov, que permanceu 25 horas e 18 minutos no espaço. Os Estados Unidos desenvolviam o avião-foguete X-15, um bólido negro de titânio e aço capaz de ultrapassar os limites da alta atmosfera, manobrar alguns minutos no espaço e regressar, pousando como uma aeronave convencional. Cinco pilotos foram treinados, sendo três deles engenheiros aeronáuticos. Selecionaram os dois mais experientes, os majores Joseph “Joe” Walker e Robert “Bob” White. Os testes ocorreram entre abril e outubro de 1962. Em 30 de abril, Walker ascendeu a mais de 70 km de altitude superando os 3.000 km/h. Inopinadamente, cinco UFOs em forma de disco, voando em “escalão”, passaram a seguir o X-15.

Apesar de sua tremenda velocidade, os UFOs não tiveram qualquer dificuldade em acompanhá-lo e foram captados pelas câmeras de filmagem automáticas. Os superiores de Walker autorizaram-no a relatar sua aventura à rede de televisão NBC. Por ocasião da entrevista, gravada em Seattle, promoveu-se a exibição do filme. A versão da USAF era a de que o X-15 fora acompanhado por pedaços de gelo desprendidos da carcaça do avião-foguete. Tal “explicação” não convenceu ninguém, assim como outra oferecida quatro meses depois, quando o X-15, desta vez pilotado por White, voltou a ser acompanhado por um UFO. De acordo com White, “era algo achatado, redondo e cinza”. Os dois casos, devidamente filmados, permaneceram tão secretos quanto o Projeto X-15.

A corrida espacial, ainda em seus estágios iniciais, estendia os contatos imediatos da Terra à órbita superior. Em 04 de janeiro de 1960, dois enormes objetos que seguiam uma trajetória polar, provocaram enorme agitação nos meios científicos, pois até então nem russos nem norte-americanos tinham conseguido lançar com êxito um objeto que seguisse uma trajetória ou órbita de pólo a pólo. Os objetos em questão foram fotografados pela Estação Rastreadora de Satélites da Grumman Aircraft Corporation. Estimou-se que cada qual pesava 15 toneladas, sendo que o maior satélite lançado até o momento, pertencente à União Soviética, pesava 1.300 kg, e os lançados pelos Estados Unidos não excediam 244 kg.

Revistas como Newsweek e Life informaram que outros satélites gigantes, de procedências igualmente desconhecidas, haviam sido detectados a 11.200 km de altitude. Em 10 de janeiro de 1961, um UFO rastreado pelos radares de Cabo Kennedy, seguiu o foguete Polaris quando este ganhava altura. Em 20 de fevereiro de 1962, subiu o primeiro astronauta norte-americano. O vôo de John Glenn, de três órbitas, quatro horas e 56 minutos, entrou para a história não tanto por ser um espetacular sucesso de técnica, mas principalmente pela forma dramática e aberta como foi apresentado ao mundo. Glenn subiu diante do maior público de televisão da história até então – 135 milhões de pessoas assistiram à sua partida e ouviram suas transmissões do espaço. Em 24 de maio, o astronauta M. Scott Carpenter, a bordo da cápsula Aurora 7, fotografou objetos alongados. A versão espanhola da Life anunciou na ocasião que o enigma estava resolvido: “Carpenter fotografió los misteriosos ‘copos de nieve’, que ya John Glenn había visto, brillando bajo um espetacular golpe de Sol. Carpenter descubrió que podia producirlos golpeando con los nudiloos las paredes de la cápsula, y los atribuyó a la escarcha externa”.

Em 15 de maio de 1963, o major Gordon Cooper Jr. foi lançado em uma cápsula Mercury para uma jornada de 22 órbitas ao redor da Terra. Durante a órbita final, enquanto atravessava a Austrália, Cooper informou a Estação de Rastreamento em Muchea, perto daquele país, que ele observava um objeto resplandecente de cor verde e cauda vermelha bem à sua frente se aproximando rapidamente de sua cápsula. O UFO era real e sólido, já que foi detectado pelo radar de Muchea. O avistamento de Cooper foi levado ao ar por diversas rádios e pela rede de TV NBC, que estava cobrindo o vôo passo a passo. Milhões de pessoas puderam assim acompanhar as mensagens de Cooper. Mas quando Cooper aterrissou, disse aos repórteres que eles não estavam autorizados a questioná-lo a respeito do avistamento.

Dez anos antes, em 1951, Cooper havia observado UFOs enquanto pilotava um jato Sabre F-86 sobre a ex-Alemanha Ocidental. Eles eram metálicos, em forma de disco, e se movimentavam de uma forma que nenhum jato de combate podia fazer. Em uma entrevista que concedeu décadas depois, Cooper desabafou: “Por muitos anos eu tenho vivido com um segredo devido a um sigilo imposto pelo governo. Todos os dias, nos Estados Unidos, nossos radares detectam objetos de forma e composição desconhecidas para nós. Existem milhares de testemunhos e uma quantidade de documentos para provar isso, mas ninguém quer torná-los público”. Ao ser perguntado “Por que?”, respondeu: “Porque as autoridades têm medo que população entre em pânico com medo de uma invasão. Então a ordem é: Temos que evitar o pânico de todas as formas”.

Embora pairasse um grande segredo, soube-se que vários satélites soviéticos desapareceram ou foram desviados de suas órbitas. Correspondentes de Moscou apuraram que em outubro de 1963, uma esquadrilha de discos voadores rodeou uma cápsula espacial tripulada por três astronautas. Os objetos geravam um campo magnético tão intenso que a cápsula vibrou terrivelmente, quase provocando um desastre. Em março de 1965, Moscou anunciou que os astronautas Pavel I. Belyayev e Alexei A. Leonov permaneceriam circundando a Terra por mais tempo. Porém, após a 18ª órbita, a cápsula precipitou-se feito uma bola de fogo na atmosfera e se arrebentou num banco de neve, a 1.400 km ao noroeste do lugar programado. Os astronautas por pouco não morreram queimados e em seguida congelados. Em uma conferência de imprensa em Moscou, Belyayev e Leonov revelaram que, instantes antes de caírem, encontraram-se com um “satélite luminoso”.

Em 08 de abril de 1964, quatro UFOs voltearam a cápsula não tripulada Gemini, acompanhando sua trajetória. Em 11 de julho de 1965, a Associated Press informou que Edward White – o primeiro norte-americano a andar no espaço – e James McDivitt, a bordo da Gemini 4, viram um objeto metálico de forma bizarra no espaço sobre o Havaí e a Ásia Oriental. O UFO tinha longos braços saindo dele. McDivitt tirou fotografias com uma câmera. As fotografias jamais foram divulgadas. Declarou McDivitt: “Não sei o que era esse objeto, e não creio que alguém saiba”.

Os astronautas James Lovell e Frank Borman, a bordo da Gemini 7, observaram em 04 dezembro de 1965 um UFO durante a segunda órbita do vôo de 14 dias. Borman disse que estavam vendo “um ‘espantalho’ na direção 10h00, mas um pouco mais acima”. Isso significava que o objeto se encontrava a 60º à esquerda da trajetória da cápsula. O controle da missão Gemini, em Cabo Kennedy, disse que ele estava vendo o estágio final do próprio foguete de lançamento Titan. Borman confirmou que ele podia ver o foguete também, mas que o que eles estavam vendo era algo totalmente diferente: “É um UFO, e não se trata de estágio de impulsão. Sabemos muito bem onde se encontra o estágio”, retrucou Borman. O incidente ficou gravado na fita magnética nº 43.

No dia de Natal de 1968, Lowell, Borman e Anders faziam o primeiro vôo em torno da Lua. Assim que saíram do lado oculto do satélite, Lovell, no comando do módulo da Apollo 8, disse bem alto e em bom som para que todos em Houston escutassem: “Temos o prazer de informar ao presidente dos Estados Unidos, às nossas esposas e famílias e a toda equipe da NASA, que Papai Noel existe”. E completava: “Papai Noel é enorme, esférico e muito brilhante. E parece estar nos acompanhando em vôo paralelo”. Logicamente os astronautas não falavam exatamente de Papai Noel, mas usavam um código previamente fixado pela National Aeronautics and Space Administration [Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço, NASA]. Essas conversações teriam sido captadas e gravadas por radioamadores de todo o mundo.

Momentos antes de entrar em órbita a bordo da Gemini 10 em 18 de julho de 1966, John W. Young, alertou: “Há dois objetos brilhantes aqui em cima, e não são estrelas”. O Centro de Controle de Houston, Texas, solicitou detalhes do objeto: “Parecem satélites de algum tipo”, tentou definir Young. Em 12 de setembro de 1966, partiu de Cabo Kennedy a penúltima nave tripulada da série Gemini, a Gemini 11, levando a bordo Charles Conrad e Richard Gordon. A missão era a de acoplar-se com a nave automática Agena e elevar-se acima dos cordões de radiação de Van Allen. Com isso, os cientistas do Projeto Apollo, em pleno andamento, esperavam saber se a blindagem da nave seria capaz de proteger os astronautas durante a rápida passagem por aquelas barreiras naturais e letais de radiação. Gordon e Conrad teriam ainda de fotografar estrelas sempre que a Gemini entrasse no cone de sombra da Terra.

A missão transcorreu normalmente até, que no dia 12, um estranho objeto de grandes dimensões cruzou a órbita da Gemini. Anos mais tarde, em 1968, Gordon visitou o Brasil e, numa entrevista à imprensa, descreveu o fato: “Estava eu de pé sobre o casco da nave fotografando estrelas com a câmera especial, quando avistei algo que vinha em sentido contrário. Consegui tirar fotos coloridas do objeto, que passou a menos de 100 m. Era metálico, oval, esverdeado e muito maior do que a Gemini. Possuía duas longas antenas, uma de cada lado. Em segundos, desapareceu pelo lado oposto”. Em 24 de abril de 1967, Vladimir Komarov morria no espaço testando a Soyuz, foguete com capacidade de 1.500 toneladas de empuxo projetado para levar os soviéticos à Lua. Em novembro, James Lowell e Edwin Aldrin, a bordo da Gemini 12, viram quatro UFOs que, assegurou Lowell, “não eram estrelas”. A zona em volta da Terra encheu-se de resíduos a partir das primeiras incursões no espaço: satélites desativados, pedaços de naves, sacos de lixo e até uma câmera fotográfica perdida por um astronauta. Quase todos eles, no entanto, estavam catalogados e eram permanentemente seguidos pelo elaborado e custoso sistema de radar terrestre.

A Onda de 1965

Em janeiro de 1965, Albert M. Chop, diretor-adjunto do Serviço de Relações Públicas da NASA, antigo adido de imprensa da USAF e encarregado do assunto UFO no Pentágono, chegou ao ponto de declarar enfaticamente à True Magazine estar há muito convencido de que os discos voadores eram engenhos interplanetários e que a Terra vinha sendo vigiada do espaço. “Embora justificáveis, os relatórios alimentaram as versões de que o governo estava escondendo evidências de seres e espaçonaves extraterrestres”, concluiu o estudo publicado na revista Studies of Intelligence, veículo oficial da CIA.

Os UFOs voltaram a sobrevoar a Casa Branca em 11 de janeiro de 1965. Com duas semanas de antecedência, em 29 de dezembro de 1964, três deles foram detectados pelos radares voando a quase 8.000 km/h. A USAF atribuiu o fato a erros de interpretação. Três dias antes, no dia 21, Horace Bruns contou que o motor de seu carro morreu na U.S. Highway 250, ante a presença de um UFO em forma de cone medindo 40 m de largura e 20 de altura. “Ele ficou pousado em um campo à margem da estrada por mais de um minuto e meio e decolou em ângulo reto”. O professor Ernest Gehman e dois engenheiros da DuPont mediram o nível de radiação do local e detectaram índices acima do normal. Os UFOs invadiram o espaço aéreo de Washington por quatro vezes entre outubro de 1964 e janeiro de 1965. Em 25 de janeiro, policiais de Marion, Virgínia, viram um objeto brilhante que desapareceu deixando uma esteira de faíscas. Vinte minutos depois, nove pessoas de Fredericksburg, cidade a 480 km de distância, viram a mesma esteira de faíscas.

A média de casos desde 1958 registrava uma cifra de 514 por ano. Em 1965, só durante o verão, atingira-se esse número. O Blue Book continuava funcionando na Base Área de Wright Patterson, em Ohio. A política de censuras e segredos ainda vigoravam e nada indicava que iria ser modificada nos próximos anos.

A edição de 15 de julho de 1965 do jornal Evening Post, de Charleston, criticou severamente a USAF pela manutenção do segredo. E no dia 31, os militares viram-se às voltas com uma onda de UFOs em Oklahoma, Kansas, Nebraska, Texas e em outros cinco Estados do Centro Oeste. Um boletim transmitido ao teletipo do QG da USAF abalou os censores. As bases de Tinker, em Oklahoma, e Carswell, no Texas, confirmaram publicamente a detecção pelo radar de uma formação de UFOs.

O Pentágono tentou corrigir o erro e explicou à imprensa que se tratavam apenas do planeta Júpiter e das estrelas Betegeuse, Rigel, Aldebaran e Capella. Os astrônomos rechaçaram isso, pois nenhuma das estrelas mencionadas estava visível no céu dos Estados Unidos na época das aparições. A imprensa redobrou os ataques. O News, de Idaho: “A política oficial do governo é negar a existência daquilo que ele não pode explicar”. O News Leader, de Richmond: “Os desmentidos servem apenas para aumentar a suspeita de que a USAF não quer que saibamos de algo importante”. Para acalmar a situação, a USAF comunicou ao vice-presidente Humphrey, ao senador Birch Bayh e a outros legisladores, que todos os casos de UFOs haviam sido explicados.

Editoriais exigindo transparência saíram em jornais de muitos Estados. Até um jornal do Canadá, o Equity, de Shawville, Quebec, escreveu: “Há uma crença acentuada de que os chefes militares sabem muito mais sobre os UFOs do que alegam, mas estão guardando isso como um segredo bem oculto, a fim de não assustar o povo”. No início de 1965, menos de 20% do público acreditava em UFOs, de acordo com pesquisas de opinião feitas pela USAF. Esse número estava agora em mais de 33%. No período de um mês, milhões de incrédulos convenceram-se de que os UFOs eram reais e de que a USAF omitia a verdade. Como assinalou Keyhoe, “desde o tenso verão de 1952, os censores receavam a irrupção de uma crença generalizada. A cada onda de aparições, aumentava o número de crentes. Mas nunca antes o perigo tinha sido tão grande como agora. Os censores temiam ser soterrados por uma avalanche de casos até àquela data ainda não reportados por testemunhas anônimas. Pelos cálculos da USAF, não mais do que 10% do total havia chegado ao conhecimento do público. Se continuasse essa tendência anti-USAF, uma quantidade cada vez maior de pessoas iria relatar aparições e esse fluxo de provas poderia comprometer os militares”.

Novembro de 1965 foi um mês pródigo em ocorrências. Às 12h30 do dia 03, policiais de Exeter, New Haven, abordaram duas mulheres em estado de choque dentro de um carro. A motorista contou que um gigantesco UFO de intenso brilho vermelho as seguiu de perto ao longo de 20 km. Por volta de 01h45, o jovem Norman Muscarello, de 18 anos, entrou nervoso, exausto e quase sem fôlego na Delegacia de Exeter. Acalmado pelo sargento Reginald Toland e pelo patrulheiro Bertrand, Muscarello contou-lhes que voltava para casa pela Rodovia 150 quando, repentinamente, o ambiente à sua volta ficou vermelho, enquanto uma nave dotada de quatro ou cinco luzes da mesma cor erguia-se acima das árvores. As luzes piscavam em uma seqüência de ida e volta. Terrivelmente assustado, o jovem escondeu-se atrás de uma pedra vendo a coisa passar lentamente sobre sua cabeça sem emitir qualquer ruído, a uma altura de apenas 30 m. A seguir, pairou logo acima de uma casa vizinha, de propriedade de Clayde Russel, e desapareceu atrás das árvores.

O sargento Toland encarregou o patrulheiro Bertrand de investigar o local. Em princípio, ele e o jovem nada viram de extraordinário. No momento em que Bertrand iluminou a área com sua lanterna, porém, surgiu um grande objeto negro com uma fileira de luzes brilhantes de cor vermelha, acima das árvores. As luzes se apagaram e a grande massa rumou ameaçadoramente em direção aos dois homens. Bertrand apanhou sua pistola mas achou melhor não atirar. A luz vermelha era tão forte que temeram sofrer queimaduras ou perder a visão. O patrulheiro pediu reforço pelo rádio e o seu colega David Hunt ainda chegou a tempo de observar o UFO por cerca de seis minutos.

Primeira Comissão de Inquérito do Congresso sobre UFOs

O segundo surto irrompeu em 14 de março de 1966. Às 03h50, os subdelegados B. Bushroe e J. Foster viram discos voadores manobrando velozmente sobre Dexter, a 20 km de Ann Arbor, Michigan. Três dias depois, novos relatos de acrobacias aéreas no local. Em 20 de março, luzes se deslocaram ao redor de uma zona pantanosa, perto de Dexter. Na noite seguinte, mais de 50 pessoas, incluindo 12 policiais, viram luzes idênticas perto de Ann Arbor, e a 100 km dali, 87 moças, estudantes do Hillsdale College, durante quatro horas acompanharam as evoluções de um objeto ovalado e cintilante que pairava sobre um pântano. Graças à imprensa, a população estava novamente excitada.

A fim de acalmá-la, a USAF enviou Hynek a Michigan. Segundo ele, “a emoção era tamanha que não tive condições de fazer qualquer investigação realmente séria”. Na verdade, mal chegara a Michigan quando o QG da USAF ordenou-lhe categoricamente: “O senhor dará uma entrevista coletiva amanhã e explicará essas notícias!”. Hynek não sabia o que dizer. Lembrou-se então do telefonema de um botânico da Universidade de Michigan, que o alertara sobre o fenômeno da combustão do gás dos pântanos. Assim, acabou declarando aos jornalistas que a causa do fenômeno poderia ser o gás dos pântanos, evanescente da matéria vegetal em decomposição. Antes do término da entrevista, os jornalistas correram aos telefones e a versão do gás do pântano se espalhou por todo o país. “Nunca uma explicação da USAF teve uma recepção tão violenta”, lembrou Keyhoe. A manchete do jornal Tribune, de South Bend: “A USAF insulta o público com essa teoria de gás do pântano”. O News, de Indianópolis, pediu a abertura de um inquérito parlamentar no Congresso. No talk-show de Johnny Carson, Albert Hibbs, cientista do Instituto de Tecnologia da Califórnia, rejeitou a teoria. A Time, a Newsweek e a Life abordaram o assunto, e redes de tevê traziam notícias diárias sobre UFOs.

No Capitólio, o líder da minoria e representante de Michigan, Gerald Ford, exigiu uma investigação completa. Para aliviar as pressões, a USAF consentiu em participar da Primeira Comissão de Inquérito do Congresso sobre os UFOs, realizada no dia 05 de abril de 1966 em sessão fechada do Comitê Legislativo das Forças Armadas, presidido por L. Mendel Rivers, deputado de Carolina do Sul. Para Keyhoe, a breve audiência do Comitê, que durou apenas uma hora e 20 minutos, não passou de uma farsa. Rivers convocou apenas três indivíduos para depor: o secretário-geral da aeronáutica Harold Brown, o diretor do Blue Book, major Hector Quintanilla, e o consultor do Projeto, Josef Allen Hynek. Brown disse que “Não há prova de que os UFOs sejam de outros planetas, nem tampouco que existam”. Hynek atritou-se com a USAF ao contradizer os desmentidos oficiais. Segundo ele, conhecia pelo menos 20 casos totalmente inexplicáveis. Em 1948, ao ser contratado pelo Projeto Sign, o céptico Hynek pensava que a mania UFO desapareceria bem depressa. Entretanto, o interesse subjacente pelos UFOs, alimentada por uma sucessão ininterrupta de relatos, cresceu com o decorrer dos anos.

Uma pesquisa do Instituto Gallup feita logo em seguida, mostrou que quase metade da população – 46% – acreditava em UFOs.

Comissão Condon

A USAF encarregou um Comitê de Consultoria Científica ad hoc [Designado] para avaliar o Blue Book. Em fevereiro de 1966, o Comitê O’Brien concluiu em seu parecer que os recursos humanos à disposição do Blue Book na ocasião – um oficial, um sargento e uma secretária – eram muito limitados, recomendando o recrutamento de cientistas ligados aos meios acadêmicos. A Universidade de Harvard, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts [Massachusetts Institute of Technology, MIT], a Universidade de Carolina do Norte e a Universidade da Califórnia, em Berkeley, declinaram do convite da USAF de tomar parte no novo projeto. Hynek, da Universidade de Northwestern, para onde se transferira em 1961, e James McDonald, físico atmosférico da Universidade do Arizona, reivindicavam a incumbência às suas instituições. As duas não foram aceitas porque ambos já haviam se posicionado publicamente sobre o assunto: Hynek era céptico e McDonald um crente convicto.

Às recomendações do Relatório Robertson, de janeiro de 1953, acrescentou-se uma outra – secreta – a pedido dos representantes da CIA que assistiram à seção final do grupo. Estes representantes foram H. Marshall Chadwell, Ralph L. Clark e Philip G. Strong. O militar de maior graduação da USAF que se encontrava presente era o brigadeiro Garland, chefe do ATIC, F. C. Durante e Hynek, “membros associados” da comissão. Esta recomendação, imposta pela CIA exigia um sistemático debunking [Descrédito] aos “discos voadores”. O objetivo deste descrédito consistia em “reduzir o interesse público pelos discos”.

A existência desta quarta cláusula foi descoberta por James E. McDonald, físico atmosférico da Universidade do Arizona em Tucson. McDonald aproveitou em 1968 o convite feito pelo secretário-geral da Aeronáutica, Harold Brown, a todos os cientistas que desejaram consultar os arquivos secretos do Blue Book, convencido de que nenhum deles aceitaria o convite. Mas McDonald o fez, já que esperava encontrar entre aquele conjunto de observações de UFOs algum fenômeno meteorológico mal conhecido, e assim foi como descobriu os resultados completos do Grupo Robertson. A partir daquele dia, McDonald – que se suicidou em 13 de junho de 1974 – converteu-se num ardil da causa extraterrestre e num personagem muito incômodo para a CIA, à qual não deixou de atacar até a véspera da morte. Os motivos que a CIA teve para fazer esta recomendação às Forças Aéreas, que estas cumpriram, fielmente, durante mais de 15 anos, até a dissolução do Blue Book, foram que, no caso de uma agressão de uma potência hostil contra os Estados Unidos, os meios de informação militar, a rede de radares do NORAD etc, poderiam ficar bloqueados por observações de “discos voadores”. Por isso, tinha que desacreditar os UFOs, considerando o enorme potencial científico que sua existência poderia supor.

Em julho de 1966, decidiu-se pela Universidade do Colorado e à figura de Edward Uhler Condon, professor de física de 64 anos, nascido em Alamogordo, Novo México, pioneiro nas pesquisas da mecânica quântica, tendo participado do desenvolvimento do radar e da bomba atômica – ao lado dos demais cientistas do Projeto Manhattan –, e membro do Joint Institute for Laboratory Astrophysics [Instituto Associado de Astrofísica Laboratorial]. Ela havia obtido seu PhD pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, em 1926, com apenas 24 anos. No início dos anos 50, a lealdade e o serviço patriótico de Condon aos Estados Unidos foi reconhecido por membros do Congresso. O astrofísico Carl Sagan foi um de seus alunos e mais devotados discípulos.

Desde o início, a chamada Comissão Condon deparou-se com problemas, a maioria delas resultantes de divergências entre Condon, o diretor, e Robert Low, o administrador. Ela nunca funcionou como um corpo coerente, e acabou destruída por querelas internas. A figura central nesse dilema, segundo Keyhoe, era Richard Nixon, o candidato do Partido Republicano à Presidência. Na época em que Nixon integrava o Comitê de Atividades Anti-Americanas da Câmara, Condon culpou-o diretamente por restringir o acesso dos cientistas aos assuntos de segurança. Poucos se lembravam disso em meados de 1968, mas Nixon certamente não esquecera. Se eleito, como de fato foi, na condição de comandante em chefe das Forças Armadas poderia reter o relatório Condon. Receando isso, logo após a indicação de Nixon, a USAF começou a pressionar a Universidade do Colorado para terminar o relatório.

A Comissão Condon existiu entre outubro de 1966 e novembro de 1968. A Scientific Study of Unidentified Flying Objects [Um Estudo Científico dos UFOs] – mais conhecido como “Relatório Condon” – é o título do alentado trabalho entregue a USAF em 31 de outubro e publicado em forma de livro em 1969. As suas 1.465 páginas de argumentações acadêmicas de autoria de 36 cientistas, enriquecidas por mapas e fotografias, forneceu aos cépticos a munição necessária para desautorizar o conjunto dos casos. Mas tantas eram as indefinições que os crentes e entusiastas não viram motivos para abandonar o proselitismo. Quase 30% dos casos analisados ficaram sem explicação. Sugeriu-se a possibilidade de pelo menos um UFO genuíno – Caso 2, p.251. Se não se preocupassem tanto em provar que os UFOs não eram extraterrestres e sim que existia um fenômeno – independente de sua origem – poderoso atuando, talvez o relatório final tivesse chegado a outras conclusões.

No capítulo-sumário, Condon pugnou pelo fechamento do Blue Book. O destino do projeto, o mais duradouro e frutífero de todos, foi decidido em março de 1969 numa reunião de alta cúpula no Pentágono. Condon, afinal, prestara-se perfeitamente aos objetivos oficiais.

O secretário da USAF, Robert Seamns, extinguiu o Blue Book em 17 de dezembro. O Departamento de Defesa distribuiu um comunicado à imprensa anunciando a desativação do Projeto e o afastamento do governo de assuntos relativos aos UFOs. Paradoxalmente, no mesmo ano em que o homem conquistara a lua, a era dos UFOs parecia ter chegado ao fim. Contudo, eles não leram o Relatório Condon. Quando em outubro de 1973 irrompeu uma onda de aparições nos Estados Unidos, a mão fria de Condon foi retirada do fenômeno.

Dos 12.618 casos pesquisados pela USAF no período de 22 anos, 11.917, ou 94,4%, não passariam de erros de interpretação ou fraudes envolvendo objetos materiais – balões, satélites, aviões etc –, não materiais – fenômenos atmosféricos –, astronômicos – estrelas, planetas, Sol, Lua, meteoros etc – e condições meteorológicas especiais. Somente 701, ou 5,6%, permaneceram sem explicação.

O secretário-geral da ONU, U. Thant, afirmou categoricamente em 1969 que “depois da Guerra do Vitenã, o problema mais sério que a ONU tem a enfrentar é o dos UFOs”. Logo em seguida foi a vez do ministro das Ciências da União Soviética ir à TV e admitir que seu país considerava os UFOs uma questão bastante séria, e que era uma obrigação dos cidadãos soviéticos relatar às autoridades todas e quaisquer observações dessas naves. Após o programa, mais de 100 mil cartas foram recebidas com tais relatos, enviadas por pessoas de todos os cantos da União Soviética.

Nos Estados Unidos, bem como nos demais países, ninguém tinha a quem relatar suas experiências, ignorados pelas instituições oficiais, agora totalmente desincumbidas de qualquer responsabilidade. A população, entre curiosa e amedrontada, passou a recorrer a organizações civis privadas. Hynek desligou-se da USAF, assumiu a direção do Departamento de Astronomia da Universidade de Northwestern e fundou o Center for UFO Studies [CUFOS, ou Centro de Estudo de UFOs]. Em seu livro The UFO Experience [A Experiência dos UFOs], de 1972, apresenta um método para coleta de informações, uma espécie de taxonomia fenomenológica.

Luzes de Piedmont

Em 1973, Harley D. Rutledge, então diretor do Departamento de Física da Southeast Missouri State University, dirigiu uma equipe universitária encarregada de estudar o que num primeiro momento se definiu como a “Psicose de Piedmont”, relacionada às estranhas luzes insistementente reportadas e até fotografadas pelos moradores daquela cidade do Missouri. A equipe estava equipada com câmeras sofisticadas, quatro telescópios, um analisador de espectro e um gravímetro [Aparelho que mede alterações na força do campo gravitacional].

Rutledge verificou pessoalmente 12 avistamentos de misteriosas luzes celestes. Ao todo foram investigados 157 casos, e no relatório final concluiu-se que se tratava de um fenômeno inexplicável, embora passível de possíveis explicações científicas posteriores. A certa altura, em meios às pesquisas de campo, Rutlegde começou a sentir que aquelas estranhas luminiscências interagiam de alguma forma com ele e com os integrantes de sua equipe. Em seu livro publicado em 1981, Project Identification: The First Scientific Field Study of UFO Phenomena [Projeto Identificação: O Primeiro Estudo de Campo Científico do Fenômeno UFO, New Jersey, USA, Prentice-Hall, Upper Saddle, 1981], conjecturou que haveria uma inteligência desconhecida comandando as luzes.

Em 1976, o primeiro-ministro de Granada Erik Geiry declarou na sessão da Assembléia Geral da ONU: “Eu mesmo vi um disco voador e fiquei chocado com isso”. E propôs a criação de um comitê internacional aberto para o estudo do problema. Uma comissão política especial da ONU, após discutir a questão, recomendou à Assembléia Geral propor a todos os países a união de esforços para estudar os discos. Mas Geiry não conseguiu levar adiante a sua idéia, porque houve um golpe militar em Granada que provocou uma mudança no poder. Os norte-americanos acharam o governo de Granada ruim e intervieram na ilha com o seu Exército. Só restou o telegrama do Departamento de Estado, que culpa a delegação dos Estados Unidos na ONU por se colocar contra a resolução proposta por Geiry.

Lei de Liberdade de Informações

O ano de 1978 marcou uma nova investida dos ufólogos norte-americanos contra o governo. Amparados pela Lei de Liberdade de Informações [Freedom of Information Act, FOIA], acionaram judicialmente as agências de informação e os departamentos militares, tencionando a liberação de documentos oficiais. Um dos precursores dessa iniciativa, tendo à frente o diretor William Spaulding, foi o GSW.

As ações surtiram efeito, mas só em parte. A CIA reteve a maior parte dos documentos confidenciais, pois uma cláusula da lei protegia o acesso àqueles que afetassem a segurança nacional. Citemos as palavras do diretor H. Marshall Chadwell, que figuram num memorandum interno da CIA datada de 11 de setembro de 1952: “O problema dos discos voadores excede o nível das responsabilidades individuais do Departamento de Inteligência Científica da CIA, e é de tal importância que merece a competência e a ação do Conselho de Segurança Nacional”. A NSA, da qual dependia o Conselho, negou-se a entregar 131 documentos sobre UFOs. Em dezembro de 1980, um juiz do distrito de Washington, Gerhard Gesell, sentenciou que não se devia torná-los públicos “porque podem pôr em perigo a segurança nacional”. A decisão baseou-se em um relatório de 21 páginas apresentada pela NSA.

Por outro lado, o grupo Cidadãos contra o Segredo dos UFOs [Citizens Against UFO Secrecy, CAUS], recorreu ao Tribunal de Apelação altercando que se os discos voadores não existem, como afirmava o governo, este não tinha por que continuar ocultando informações. O advogado da NSA, Chery Long, pugnou que, independente do conteúdo, não se podia liberar documentos sem pôr em perigo ou comprometer as técnicas da Agência. O juiz deu ganho de causa ao CAUS, e centenas de páginas – muitas delas previamente censuradas –saíram dos arquivos secretos. Soube-se assim que, em março de 1966, a Junta Consultiva da USAF submeteu um relatório especial do Blue Book à avaliação de um Comitê ad hoc, o qual concluiu que os UFOs, afinal, não constituíam uma ameaça à segurança nacional. Em 09 de março de 1982, o Supremo Tribunal de Washington rejeitou o recurso de apelação do CAUS para que a NSA desbloqueasse definitivamente toda a documentação sobre UFOs. A Agência admitiu possuir 135 deles, porém uma vez mais alegou questões de segurança nacional.

Comitê Sturrock

Desde que a Comissão Condon, em 1969, pretendeu ter dado o veredito final sobre os UFOs, nenhuma outra pesquisa científica em âmbito oficial havia sido realizada nos Estados Unidos. Até que, em dezembro de 1996, Peter Andrew Sturrock (1924-), professor britânico emérito de astronomia e física aplicada da Universidade de Stanford e presidente da Society for Scientific Exploration [SSE, ou Sociedade para Exploração Científica], não se conformando com o descrédito, o sensacionalismo, a ignorância e a confusão que imperavam em torno do assunto, resolveu buscar apoio, respaldo e recursos financeiros que permitissem inverter o quadro. “As universidades”, lamentava ele, “infelizmente não oferecem cargos para os cientistas que se dedicam à Ufologia. Assim, é melhor não começar a fazer perguntas incômodas enquanto não se houver assegurado um bom cargo”.

Sturrock até então tinha dedicado a maior parte de sua vida à astrofísica, à física de plasma e à física solar, sem deixar de interessar-se por outros campos, como a história da ciência, a filosofia da ciência e a Ufologia. Autor e co-autor de inúmeros textos e livros científicos, Sturrock ganhou muitos prêmios e homenagens ao longo de sua brilhante carreira. Tendo ingressado na Universidade de Cambridge em 1942 para estudar matemática, durante e logo após a Segunda Guerra Mundial ajudou a desenvolver sistemas de radar para o setor de telecomunicações do governo. Em 1951 Sturrock obteve seu Ph.D. em astrofísica. Em 1961 tornou-se o titular da cadeira de física aplicada na Universidade de Stanford, onde permanecia até 1998. Entre 1992 e 1998, Sturrock foi diretor do Centro para a Ciência e Astrofísica do Espaço, e entre 1981 e 2001 presidente da Sociedade para a Exploração Científica. Sturrock também foi presidente da Divisão de Física de Plasma e da Divisão Solar de Física da Sociedade Astronômica Americana. Atualmente ele é professor honorário de física aplicada em Stanford.

Da Fundação Rockefeller, dirigida pelo milionário filantropo da família de banqueiros norte-americanos e entusiasta da Ufologia Laurance Rockefeller, Sturrock conseguiu o apoio financeiro necessário para levar adiante o seu ambicioso projeto, que começou a sair do papel durante a Conferência de Pocantico, em Tarrytown, Nova York, entre 29 de setembro e 04 de outubro de 1997. Sob a direção de Sturrock, estabeleceu-se que a legitimidade do Fenômeno dos UFOs seria avaliado por um Comitê Diretor Científico integrado pelos cientistas T. E. Holzer, R. Jahn, D. E. Pritchard, H. E. Puthoff, C. R. Tolbert e Y. Terzian. No Painel de Revisão Científica estavam Von R. Eshleman [Professor emérito da Universidade de Stanford], T. E. Holzer, J. R. Jokipii, F. Louange, H. J. Melosh, J. J. Papike, Guenter Reitz [Do Centro Aeroespacial e Instituto de Medicina Aeroespacial de Colônia, Alemanha], Charles R. Tolbert [Astrônomo da Universidade de Virginia], e B. Veyret. Ficaram encarregados das investigações ufológicas R. F. Haines, I. von Ludwiger, M. Rodeghier, J. F. Schuessler, E. Strand, M. D. Swords, Jacques Vallée [Astrofísico e ufólogo francês], e Jean-Jacques Velasco [Diretor do Serviço de Investigação dos Fenômenos de Reentradas Atmosféricas do governo francês]. Os moderadores eram D. E. Pritchard e H. E. Puthoff.

Durante quatro dias, físicos, engenheiros aeroespaciais e astrônomos examinaram evidências e supostas provas materiais da existência dos UFOs, entre fotografias, registros de radares, interferências no funcionamento de automóveis e aviões, efeitos inerciais ou gravitacionais aparentes, marcas no solo, queimaduras na vegetação, efeitos fisiológicos em seres humanos etc. Sturrock justificou a preferência por esse tipo de amostra dizendo que“Se há um interesse em buscar respostas sérias para esse mistério, os cientistas têm que se concentrar nas evidências físicas e não tanto nos testemunhos”.

Essa primeira reunião do comitê produziu um texto de 50 páginas publicado no Journal of Scientific Exploration [Jornal da Exploração Científica]. A priori, o comitê formulou comentários e críticas sobre as investigações apresentadas, sem no entanto chegar a uma conclusão definitiva, apostando que muito embora “as pesquisas dos últimos 50 anos não tenham provado a existência de uma tecnologia extraterrena, isso não significa que o Fenômeno UFO não possa ajudar os cientistas a compreender melhor a realidade que nos rodeia”. O parecer preliminar foi o de que “embora ainda não exista uma prova definitiva de que há vida inteligente fora da Terra, muito menos uma evidência incontestável de que seres de outros planetas nos visitaram, alguns registros merecem ser mais bem estudados”.

No final de junho de 1998, o Comitê Sturrock se reuniu novamente, desta vez em San Francisco, Estados Unidos, para discutir cientificamente a veracidade ou não dos casos de contatos com UFOs. O jornal Washington Post dedicou uma página inteira falando sobre UFOs em sua edição de 29 de junho. Pela primeira vez em sua história, esse jornal abria espaço para tal assunto.

Dois casos em particular impressionaram tremendamente os cientistas presentes. O primeiro referia-se a uma fotografia tirada em 1981 por uma família do Canadá, que mostra um objeto voador prateado e oval, brilhando com o reflexo da luz solar. O outro ao testemunho conjunto de um piloto, de seu co-piloto e da aeromoça de uma linha aérea que juraram ter visto, em 1994, pela janela do avião, um objeto semelhante a um disco gigante. Os cientistas só levaram em consideração esse testemunho porque foi reforçado pelo registro de um radar suíço, que detectou o estranho objeto por 50 segundos. O comitê também analisou fotos aéreas de formas geométricas encontradas em grandes áreas agrícolas e de vegetação nativa.

Os resultados das análises desses e de dezenas de outros casos foram publicados num relatório intitulado The UFO Enigma: A New Review of the Physical Evidence [New York, Warner Books, 1999]. Nele se critica a posição omissa e reticente adotada pela ciência em negligenciar o Fenômeno UFO, apesar da existência de numerosos relatos de avistamentos e do interesse público pelo assunto. Se a maioria dos casos não passa de fraudes ou erros de interpretação, há todavia uma pequena parcela que permanece sem explicação.

A conclusão final dos cientistas foi a de que o Fenômeno UFO existe em termos físicos, independentemente das interpretações que se lhe atribuem. Sem que isso queira dizer necessariamente que as naves sejam de procedência extraterrena, desafia os cientistas a comprová-lo – e não a ciência, porque esta é neutra – e constitui um campo de debate permanente. “O problema dos UFOs não é algo simples, pelo que se deveria dar mais ênfase às evidências físicas, e que seria útil tanto o contato regular entre pesquisadores do fenômeno e a comunidade científica, como um suporte econômico institucional”, sublinhou Sturrock [p.123]. O trabalho do Comitê Sturrock continua e ainda exigirá muitos anos de esforços, tal a quantidade de relatos e fotos a serem analisados.

Continua…

Revisão: SR.Black

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