Mais que uma experiência traumática, a conquista e colonização dos povos andinos foi uma chacina.

Atuando com as bênçãos do clero católico, os espanhóis dedicaram-se, desde a sua chegada no início do século 16, a perseguir, matar e saquear.

Promoveram assim um genocídio de grandes proporções.

Alguns pesquisadores calculam que, menos de um século depois de os espanhóis chegarem ao império andino, a população havia caído drasticamente de nove milhões de pessoas para um milhão.

As principais causas disso foram os assassinatos, a fome geral provocada pela desorganização social e econômica, e as doenças trazidas da Europa pelos colonizadores, diante das quais o organismo físico dos habitantes nativos não tinha mecanismos de defesa. [1]

Apesar de tudo, a cultura, os hábitos e os valores da civilização andina foram em grande parte preservados, e Helena Blavatsky pôde observar pessoalmente este fato.

A fundadora do movimento teosófico esteve duas vezes na região andina.

Ela escreveu em “Ísis Sem Véu” sobre a resistência cultural dos povos nativos, e abordou detalhadamente a relação entre a região do Peru e da Bolívia e a sabedoria antiga.

HPB também mencionou a existência de uma cidade esplendorosa e secreta na Cordilheira, que permanecia desconhecida e inacessível para os colonizadores europeus, embora fosse eventualmente avistada à distância por algum explorador estrangeiro.

Em “Ísis”, ela conta:

“Além do fato de que essa cidade misteriosa foi vista a uma grande distância por viajantes ousados, não há qualquer impossibilidade intrínseca na ideia da sua existência, pois quem pode dizer o que foi feito do povo primitivo que fugiu diante dos salteadores de Cortez e Pizarro?

O dr. Tschuddi, em seu trabalho sobre o Peru, fala de uma lenda indígena segundo a qual um comboio de 10.000 lhamas carregadas de ouro, para completar o valor do resgate do desafortunado Inca, foi surpreendida nos Andes pela notícia de sua morte, e o enorme tesouro foi tão eficazmente escondido que nem um traço seu jamais foi encontrado.

Ele, assim como Prescott [2] e outros escritores, informam que os índios até hoje preservam suas tradições e castas sacerdotais, e obedecem implicitamente às ordens de governantes escolhidos entre eles, enquanto são ao mesmo tempo nominalmente católicos e submetem-se de fato às autoridades peruanas.

As cerimônias mágicas praticadas por seus ancestrais ainda prevalecem entre eles, e fenômenos mágicos ocorrem.

Tão persistente é a lealdade deles ao passado, que parece impossível que não estejam se relacionando com alguma fonte central de autoridade que apoia e fortalece constantemente sua fé, mantendo-a viva.

Será que as fontes dessa fé imorredoura repousam nessa cidade misteriosa, com a qual estão em comunhão secreta?” [3]

Além de ser um local fisicamente importante, este centro energético inspirador da cultura andina permanecia ativo no século 19 e irradiava sua influência apesar das novas condições históricas.

Talvez ainda esteja atuante no século 21, de algum modo.

Seguramente, pelo menos uma grande cidade andina – Macchu Picchu – foi descoberta depois da publicação de “Ísis Sem Véu”.

A impressionante cidade construída em plena cordilheira peruana foi descoberta em 1911 – 20 anos depois da morte de HPB – por uma expedição chefiada pelo cientista norte-americano Hiram Bingham (1875-1956).

Bingham contou a descoberta em seu livro “The Lost City of the Incas”. [4]

Em “Ísis Sem Véu” (vol. II, p. 224), HPB menciona que o acesso à cidade secreta dos andinos se dava através de uma passagem subterrânea.

Esse dado antecipado por HPB coincide com a narrativa de Hiram Bingham. Ele afirma – nas pp. 217-218 da sua obra – que o caminho nativo para chegar a Macchu Picchu era um túnel subterrâneo.

O início do túnel estava oculto em uma caverna.

A Índia e o Peru

Entre outros motivos, os Andes sul-americanos têm um interesse especial para a teosofia clássica porque existe um forte parentesco cármico e cultural entre o povo andino e o povo indiano.

Na parte I do seu texto “Una Tierra de Misterio” – publicado em nossos websites associados – HPB traça diversos paralelos entre a civilização andina pré-colonial e a civilização hindu. O Manco Capac das tradições andinas, diz ela, é o Manu da América do Sul.

Em “A Doutrina Secreta”, HPB mostra que, no passado remoto, os dois povos tinham muito em comum.

Nascido em 1936, o conhecido pensador peruano Hugo Neira aponta na mesma direção. Em sua obra “Hacia la Tercera Mitad” – que avalia a evolução do pensamento peruano desde o século 16 até o final do século 20 – Hugo Neira faz uma comparação sociológica e cultural entre a Índia e o Peru e afirma que nos dois países vige um sistema de castas étnicas essencialmente idêntico. [5]

Há, inegavelmente, inúmeros pontos em comum entre as civilizações andinas e as sociedades asiáticas.

A filosofia esotérica valoriza as sociedades andinas, embora não caia na ingenuidade de adotar como válidas as suas numerosas superstições.

A experiência e a sabedoria dos povos antigos é especialmente útil na atual transição planetária. Além disso, a cordilheira dos Andes tem, em si mesma, uma função inspiradora como centro de emissão de energias planetárias.

Como se sabe, diferentes locais geográficos e ambientes naturais exercem influências psicológicas e espirituais sobre os seres humanos, e as cordilheiras não são exceção. Há nelas uma atmosfera mística, benéfica e espiritualizante.

HPB Visitou a Fronteira Entre Bolívia e Brasil

Durante uma das viagens de Helena Blavatsky aos Andes, ela esteve na fronteira entre Brasil e Bolívia.

Ali, por algum motivo, ela juntou um punhado de areia de um rio para levar consigo.

HPB conta que viajou com a pequena amostra de minérios para a Europa, onde confirmou que havia na terra pepitas de ouro levadas pela correnteza do rio desde o Brasil para a Bolívia. [6]

Sabendo-se das dificuldades que uma mulher sozinha, durante o século 19, deveria ter para viajar de um continente para outro com bagagens pesadas, é possível deduzir que houve alguma razão definida pela qual HPB decidiu recolher este punhado de areia.

Na verdade, o episódio na fronteira da Bolívia com Brasil não foi um fato isolado. Para os ocultistas, o magnetismo é importante, e há uma passagem das Cartas dos Mahatmas em que um mestre pede a um discípulo leigo que lhe mande três pedras tiradas das margens do mar Adriático.

O Adriático é um braço do Mar Mediterrâneo. O mestre escreveu a Alfred Sinnett:

“Você poderia encontrar um modo de recolher para mim três seixos?

Eles devem vir das praias do Adriático – preferivelmente de Veneza; tão próximo do Palácio Dogal quanto eles puderem ser encontrados (….).

Os seixos devem ter três cores diferentes; um vermelho, outro preto, o terceiro branco (ou acinzentado).

Se conseguir pegá-los, por favor, mantenha-os separados de qualquer influência e contato exceto os seus…”. [7]

Para concluir, cabe examinar a seguinte questão: havia algum contato regular entre os mestres e aprendizes da sabedoria esotérica residentes na Ásia e nos Andes peruanos?

HPB escreveu sobre isso.

Ela disse em uma carta que certos altos discípulos asiáticos “são grandes amigos dos adeptos e chelas peruanos, mexicanos e indígenas de pele vermelha das Américas”. [8]

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NOTAS:

[1] “The Wilson Quarterly”, revista publicada pelo Woodrow Wilson International Center for Scholars, Summer 1990, Cover Story, “Latin America’s Indian Question”, ver pp. 25-26.

[2] William H. Prescott, autor de “History of the Conquest of Peru”, ou “História da Conquista do Peru”, publicado no Brasil por Irmãos Pongetti, RJ, 1946, 560 pp.

[3] “Isis Unveiled”, Volume I, pp. 546-548, The Theosophy Company, Los Angeles, 1982 e “Ísis Sem Véu”, Volume II, p. 223, Editora Pensamento, São Paulo, 2008.

[4] A primeira edição da obra é de 1948. Há uma edição peruana de 1988, Librerías A.B.C., Lima, em inglês, com 240 pp.

[5] “Hacia la Tercera Mitad”, Hugo Neira, segunda edición, Ed. SIDEA, Lima, Perú, 1997, 754 pp.; ver especialmente, pp. 194-204.

[6] “Ísis Sem Véu”, Ed. Pensamento, SP, vol. II, nota 47, última linha da p. 298 e a suas linhas primeiras da p. 299. A chamada para esta nota, no texto principal, está na linha número 9, contando de baixo para cima, na página 268.

[7] “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Brasília, edição em dois volumes, ver Carta C, vol. II, p. 334.

[8] “The Letters of H.P. Blavatsky to A.P. Sinnett”, Theosophical University Press, Pasadena, California, USA, 1973, 404 pp., ver p. 85.

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Por: Carlos Cardoso Aveline

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Revisão: SR.Black

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