Antes de mais nada vejamos se há número fixo de espíritos humanos, de sorte que se vão reencarnando sucessivamente sempre os mesmos, ou se de contínuo surgem novos espíritos à existência.

Prescindiremos do progresso da mentalidade e da consciência através do reino animal, e principiaremos na etapa humana. Entretanto, ao chegar a evolução a certo ponto, parte do reino animal ingressa no reino humano, se bem que este ponto já há muito que passou em nosso atual ciclo de evolução. Incluindo, porém, os que ainda estão nos reinos inferiores e não entraram no reino humano durante o atual ciclo, há um número fixo de espíritos que no transcurso dos séculos vão passando pela escola da reencarnação.

Porém se assim está fixado o número de egos, a que se deve o aumento da população?

A resposta é bem sucinta.

Os encarnados em determinado tempo formam uma exígua minoria dos egos ligados à roda de nascimentos e mortes e assim como para escutar uma conferência pode concorrer auditório mais ou menos numeroso, sem alterar o censo da população, assim sucede também com a população do globo, que pode aumentar em certas épocas até certo número de egos reencarnando, sem variar o número total de espíritos.

Os desencarnados permanecem afastados da terra tanto mais tempo quanto maior for a sua evolução e segundo vai progredindo a humanidade, porque os homens de tipo superior não reencarnam com tanta frequência como os de tipo inferior, porém basta uma ligeira progressão nas reencarnações ou um leve encurtamento do período celeste para aumentar em grandes proporções a população, do globo, posto que só um numero de egos, relativamente pequeno estão encarnados em determinado período de tempo.

Entretanto, não há uma prova textual de que aumente a população do globo. Se considerarmos, por exemplo, a invasão da Grécia por Xerxes e advertirmos quão numerosos eram seus exércitos, concluiremos que o mundo estava densamente povoado naquela época, ainda que, naquele tempo, não se conheciam as operações do censo. Em algum países se calcula hoje a população com muita exatidão, porém, na maior parte deles, como na China, computa-se por conjeturas o número de habitantes. Em consequência, disso não há dificuldade a respeito do aumento do número de Egos encarnados, pois a população do globo poderia se duplicar em alguns anos sem alterar o equilíbrio da natureza.

Antes de tratar dos pontos que requerem solução, digamos algo acerca da Causalidade, sem a qual não seria possível resolve-los. Há na natureza uma lei que enlaça as causas com os efeitos. Em linhas gerais, pode-se resumir no conhecido axioma de que a ação e a reação são iguais e contrárias. Os hinduístas e budistas a chamam KARMA, palavra que significa ação, porque a reação está invariavelmente unida a ela. Esta lei significa que quando se perturba o equilíbrio da natureza, ele tende a restabelecer-se e por toda parte vemos que assim sucede. Se lançamos uma pelota contra a parede, ela voltará com força exatamente igual a do choque. Esta lei atua incessantemente e esta muito em relação com os pontos de que vou tratar, pelo que devemos tê-la em conta ao expor as soluções.

Nosso mundo não e um joguete das casualidades nem do azar, nem o governam o favoritismo ou a parcialidade mas antes uma lei imutável atua em todos os aspectos da natureza, tanto no mundo físico como no mundo moral. A lei da natureza é a expressão da divina vontade, na qual, segundo diz uma escritura cristâ: “Não há mudança nem sombra de varrição” (Santiago 1º – 17).Isto é literalmente verdadeiro. A amplíssima lei de ação e reação intervém em todas as questões relativas à reencarnação e é necessário compreendê-las para termos uma ideia clara das soluções que vou expor.

O primeiro ponto refere-se às diferenças de aptidões, como as que se observam entre o selvagem e o gênio. Segundo o ponto de vista cientifico, a dificuldade é insolúvel, porém facilmente solúvel segundo a teoria da reencarnação. Cada um de nós é uma inteligência em evolução, que germina de vida em Vida, como germina uma semente de árvore de estação em estação. O selvagem é uma inteligência jovem que se encarnou muito, muito tempo depois de outra inteligência já situada nos cimos da civilização; porém ambas são de natureza divina. Entre elas há uma diferença análoga à existente entre um carvalho novo e outro velho. O primeiro acaba de brotar de uma semente plantada há um ano, e o segundo brotou há séculos de outra semente e converteu-se em gigantesca árvore. O crescimento e a evolução não se limitam aos corpos, porém manifesta-se também nos aspectos mental e moral do homem. A diferença de evolução no selvagem e no gênio, no criminoso e no santo é apenas diferença de grau. O Deus interno desenvolveu-se muito mais em um do que no outro, embora estando presente em ambos. É questão de tempo e não de injustiça. O aperfeiçoamento de um será posterior ao do outro, porém ambos tem a perfeição como destino, e para alcançá-la dispõe do tempo infinito que ante eles se desdobra.

O selvagem de hoje repousava ainda no seio de Deus, quando o que hoje é um gênio já se debatia nas lutas da evolução. Agora o gênio aproxima-se do descanso, enquanto soa para o selvagem a hora da luta. Se reconhecemos a evolução do corpo, por que não reconhecê-la na mente e na consciência?

Comparemos o nosso corpo com o de um selvagem da Nova Zelândia, do qual só resta ocrânio. Tem a fronte estreita e as mandíbulas prognáticas. Talvez digais que a diferença notada, ao comparar este crânio com o nosso, provém das influências do tempo, do progresso da evolução; que um é o crânio de um selvagem, o outro. de uma pessoa civilizada. De acordo. Porém, aplicai o mesmo raciocínio à mente e à consciência e notareis também o porque da distinção. Em tudo há crescimento e em nada há injustiça.

Nós que aqui estamos, não somos favoritos de um Deus que nos enviou pela primeira vez ao mundo, sem merecermos a posição em que nos achamos; nem tão pouco é o selvagem um pária divino, somente apto para a situação em que foi colocado. Iguais começamos e iguais seremos no final. Todos começamos na inciência, sem conhecimento algum. Todos culminaremos na oniciência, conhecendo tudo.

As diferenças entre nós são transitórias, de idade e desenvolvimento. Porém, também se pergunta: Ainda supondo que disto resultem diferenças na evolução humana, nascerá sempre uma criança, do mesmo tipo moral que os seus pais? Responderei que não. Há casos em que de pais relativamente selvagens nasce um ego mais ou menos desenvolvido. Em geral, as crianças selvagens são do mesmo tipo que os seus pais, porém há exceções. Recordemos o negro Booker Washington, um ego de notabilíssimo nível intelectual e moral, que com sua eloquente palavra e seus denodados esforços procurou realçar sua raça na escala social.

Ele foi assinalado como prova exemplar de que o negro é suscetível de elevada educação intelectual e moral. Entretanto, não é um ego adequado a um corpo de raça negra, senão que movido pela compaixão e dotado de altas faculdades, deliberadamente quis encarnar em um corpo de tipo inferior com o fim de auxiliar a uma raça repudiada e menosprezada. De quando em quando, uma grande alma consumará o sacrifício de nascer numa posição degradada com o propósito de realçar aos degradados alentando-os com seu exemplo e estimulando-os a se elevarem de nível.

Alguns dos mais insignes santos da Índia meridional·nasceram entre os párias, e, não obstante, todo o mundo reverência ali a sua memória como homens tão santamente espirituais, que mesmo aos mais altivos bramanes não repugnou reconhecê-los como santos e devotos, ainda que nascidos na ínfima classe social da Índia. Estas almas nasceram na degradada casta dos párias com objetivos de realçá-la e proporcionar-lhe ocasiões de evolução, demonstrando que nem o mais ínfimo tipo de corpo pode de modo algum enfeiar a grandeza do Deus interno. Entretanto, tais casos são excepcionais. Assim também se encontram nos bairros inferiores de Londres, entre gente de tipo abjeto, homens honradíssimos, santas e puras mulheres e cândidas crianças que brotam como imaculadas flores do lodaçal dos casebres. Como contraste, no seio de uma honrada e digna família nasce, às vezes, um indivíduo atrasado e os pais não tem outro recurso senão enviá-lo para servir de boiadeiro ou de pastor em longínqua comarca.

Estes casos excepcionais são explicados pela lei de Karma que no passado ligou os egos com os laços que os unem no presente. O indivíduo atrasado de hoje pode haver prestado em outra vida algum notável serviço que o ligou a um ego nobre e volta para que lhe paguem a dívida com a influência de um favorável ambiente. Mas para compreender em detalhe estes casos é preciso considerar as causas, como veremos mais adiante. Agora surge outra pergunta: O que há sobre os que morrem logo depois de nascer? Como explica a lei da reencarnação este inútil nascimento?

Segundo o ponto de vista da reencarnação, explica-se dizendo que no passado (falo de fatos vistos e observados) o ego do recém-nascido estava em dívida com a lei, por haver causado a morte de alguém ainda que sem maldade) de modo não propositado mas por inadvertência ou descuido. Suponhamos um caso particular. Um homem atira um fósforo, após haver acendido o cigarro e sem cuidar de verificar se está apagado, cai sobre um montão de palha que incendeia uma cabana, onde morre queimada uma pessoa. Não podemos chamá-lo de assassino, pois foi um ato de negligência e não de crime, salvo o que a própria negligência tem de criminoso. A dívida contraída com a lei é leve, ele a satisfaz pelo curto intervalo em que tomou um novo corpo ao reencarnar. O ego perde este corpo, porém em seguida procura nascimento que ocorre em geral ao cabo de poucos meses. Entretanto, em tais casos o Karma é em sua maior parte dos pais que são a causa principal do nascimento e se lhes escolhe para filho um ego que tenha a dívida mencionada, afim de esgotar o pesado Karma deles. A criatura nada perde em realidade, pois renasce em poucos meses e só sofre uma breve demora: porém os pais sofrem pela perda do tão esperado Filho. Seu karma os põe em contato com o do ego que deve uma vida, e ambos os karmas se esgotam com a morte da criatura.

Deixando de parte outros casos, apresentaremos, por exemplo, o de alguns pais que em Vida anterior tiveram falhas para com uma criança que tinha algum direito sobre eles, ainda que não nascida de seu sangue; ou ainda, o caso de um tutor cruel para com seu pupilo. Esta falta de carinho ou excesso de crueldade é uma dívida registrada no livro contas correntes da natureza, que será saldada com a morte do filho de seu coração, para que aprenda a ser mais terno e carinhoso com outras crianças. Ouvi a uma mãe, que perdeu o filho, confessar que era sua a culpa e dizer; “Serei uma mãe para todas as crianças que cruzem o meu caminho, e as amarei como teria amado ao meu filho”. Neste caso a lição produziu o seu efeito e ficou inteiramente paga a dívida kármica. Aquela mulher, conhecedora da lei, a aceitou sem queixa nem amargura, convertendo sua tristeza em bênçãos para muitas crianças desvalidas que receberam centuplicado o seu amor. Assim, por meio da natureza, ensina Deus a seus filhos a ternura e o amor.

Consideremos agora a ponte referente, não já ao progresso do indivíduo, porém ao das nações, com suas prosperidades e decadências. Como explicar isto à luz da teoria da reencarnação.

A prosperidade de uma nação é obra dos egos cada vez mais adiantados que nascem em seu seio e a elevam grau por grau a um nível superior, porque eles mesmos constituem essa nação.

Em um pais relativamente inculto nascerão as almas mais jovens da raça e quando voltarem melhoradas estarão aptas para nascer em outro país mais civilizado. A prosperidade de uma nação depende do influxo de almas adianta as que, nascidas em corpos adequados por afortuna a herança física, contribuem para elevar seu nível de civilização. – Isto dá importante ensinamento a quem tenha de tratar com as condições sociais de um povo, pois tais sejam essas condições, atrairão almas adiantadas ou atrasadas. Se são más, como ocorre na Índia, onde a sexta parte da população é pária e está exilada, inevitavelmente atrairão grande número de almas jovens e infantis para que aprendam as primeiras lições da evolução. Se educamos a estas almas inferiores de modo que vivam honradamente, se as ensinamos a criar no país onde nasceram, melhores condições sociais para as classes baixas e para as almas jovens terão que buscar então outros países menos cultos, enquanto que no país melhorado pela obra da educação nascerão almas adiantadas, atraídas pelas vantagens das novas condições para sua ulterior evolução.

Na Inglaterra sucede o mesmo que na Índia, pois embora as condições sejam ali favoráveis para alguns, temos a praga dos bairros baixos com seus pardieiros, os quais oferecem oportunidade para a reencarnação de almas selvagens, pois parte das classes ínfimas da sociedade inglesa, a plebe, os criminosos congênitos, são almas selvagens, anacronismos incorporados a uma raça civilizada. Se a Inglaterra se livrasse dessa lepra dos pardieiros eliminaria as condições propícias à reencarnação em seu país dessas almas inferiores.

O que se diz da Índia e da Inglaterra pode aplicar-se também a outros países. As sinistras condições sociais atrairão para uma nação almas pouco evoluídas. As condições vantajosas atrairão muitas mais adiantadas. Nas mãos e cada nação esta o seu destino. O descaso de melhorar a situação dos necessitados acarreta a inevitável reação da decadência nacional. Assim sucedeu no passado e assim no presente. Quando uma nação chega ao seu ponto culminante, de modo que o tipo físico alcança o seu limite e para progredir tem que transmutá-lo, então começa a decair. A história esta cheia de exemplos tais como os da Caldéia, Egito e Roma. Porém os tipos físicos danação decadente são entretanto úteis para almas atrasadas, que neles se encarnam. Depois vai se deturpando o tipo a cada influxo de almas inferiores, até que a degradada nação desaparece da história.

Dizem os antropólogos que os povos selvagens acabam sendo estéreis, e isto acontece porque seu tipo é demasiado inferior para a reencarnação dos egos e por haver outros melhores, pelo desenvolvimento da raça humana. Quando já não existem almas tão inferiores que possam habitar estes degradados corpos, as mulheres cessam de conceber e o tipo se extingue. Eis o motivo da detenção do influxo procedente do reino animal, porque chega a um ponto em que se abre um abismo entre a etapa inferior do reino humano e a superior do reino animal. Pereceram os seres com que a natureza transpunha a princípio o abismo, e assim os egos individualizados no reino animal não encontram corpos suficientemente inferiores para seu uso. É necessário esperar que haja em outro mundo tipos suficientemente simples e inferiores para neles morarem.

Assim podemos assinalar as causas da prosperidade e da decadência das civilizações. Dependem da encarnação dos egos, e este é um dos motivos de nossa luta contra a vivi secção e outras formas de crueldade científica, pois a persistência na crueldade degrada o tipo físico do homem, porque o físico é o resultado do moral, tanto em sentido ascendente como descendente. Os tipos assim degradados arruinarão a nação.

A vivi secção pertence moralmente ao passado, não ao futuro, e a menos que a consciência coletiva desperte e acabe com estes crimes de lesa-humanidade, será um dos toques fúnebres da nossa civilização.

Outro, problema é o referente à evolução dos instintos sociais. Darwin tratou deste assunto e não pôde explicá-lo ao dizer que sobreviviam, entre os animais, os filhos de pais amantes e abnegados. Mas seguramente não sucede assim. Darwin se esqueceu de que, em geral, perecem os pais bons e abnegados, e os filhos órfãos tem menos probabilidade de sobreviver. Huxley reconheceu que este era um problema insolúvel sob o ponto de vista da luta pela existência, pois observava que para ela eram desvantajosas as qualidades humanas e vantajosas as brutais.

Tomemos, por exemplo, o caso da mãe que se sacrifica pelo bem de seus filhos; do médico que perde a vida ao se esforçar desesperadamente em deter a invasão de uma terrível epidemia e do mártir que morre em defesa da verdade. Além da inspiração de seus exemplos, que benefício derramaram sobre a sociedade estas almas? No outro mundo verificam que o sacrifício realizado na terra lhes serve de material para a formação das qualidades do caráter. O pensamente e o ato de sacrifício se transmutam em virtude permanente.

Um autor hindu, Bhagavan-Das, define Isto com muito acerto dizendo que “a virtude é a modalidade permanente de uma emoção sã”. Assim, a emoção de amor se converte em virtude quando é universal e se exerce para com todos, tanto conhecidos como desconhecidos, O amor da mãe pelo filho, a emoção maternal, se transmuta em virtude de amor quando a recebem igualmente todas as crianças.

Portanto, a emoção manifestada num ato heroico cristaliza-se em virtude no céu e o homem renasce com ela como parte de seu caráter. Nada se perde. Quanto mais porém os que se sacrificam, pondo em risco a sua vida, maior benefício recebe a humanidade proveniente desse sacrifício, porque os sacrificados voltam mais nobres e magnânimos. Diz-se que o “sangue dos mártires é a semente da igreja”, não tão só pelo alento de seu exemplo, como porque os mártires voltarão a servir a religião após acrescentada a nobreza de sua alma no mundo celeste, onde se fixa permanentemente a emoção em um princípio fluídico e imutável.

Os instintos sociais despontam com maior relevo no homem que reencarna após ter realizado um sacrifício, porque durante sua longa estadia no mundo celeste os exalçou a um grau muito elevado e ao renascer os traz consigo para o serviço da humanidade.

Tal é a resposta adequada à pergunta de Huxley, que já tateava quando em sua última conferência disse: “Por acaso o homem é parte da consciência que fez o universo?” O homem é parte desta consciência e portanto é eterno. Uma vez desenvolvidas as qualidades divinas, volta àterra para ajudar a humanidade. Os santos e os heróis trazem consigo a colheita do que semearam na terra e recolheram no céu, como pão para alimento do homem. Assim se explica o desenvolvimento do instinto de sociabilidade que constitui a consciência social.

Como vimos, a reencarnação explica a existência de criminosos congênitos. São egos novos em estado selvagem, por quem não devemos nos afligir, porém, ao contrário, devemos ajudá-los. Também aqui cabe aplicar a reencarnação aos problemas da vida. Se creis nela, não enviareis o criminoso ao presídio e o soltareis após algum tempo para torná-lo a encarcerar quando cometa outro crime, pois que seria não ilógico como se um médico removesse um varioloso para hospital por uma semana, e logo a seguir lhe desse alta, para voltar a hospitalizá-lo por mais quinze dias e na terceira vez, por três semanas. Nada disto. O médico manda o enfermo para o hospital, a fim de que ali permaneça até que fique são – O mesmo processo que se segue com as enfermidades físicas, dever-se-ia seguir com as enfermidades morais. Ensinai e educai ao criminoso. Não o castigueis com severidade, porque o castigo como vingança prejudica ainda mais ao ego caído em vossas mãos. Se bem que não o deixeis em liberdade, como tão pouco soltaríeis um animal daninho que pudesse avançar contra as pessoas, porque é perigoso em seu estado selvagem de criminoso, também não amargureis a sua vida. Ensinai-o, educai-o e não lhe devolvais a liberdade enquanto não tenha aprendido a lição de viver honradamente. Muito se fala de liberdade, porém convém advertir que a liberdade é inútil e até perigosa, a menos que a acompanhe o sentimento da responsabilidade e o domínio próprio prevaleça contra os impulsos do exterior. Os criminosos necessitam de ensinamentos e disciplina, e o que tem direito de reclamar de nós não é liberdade, porém educação; não a licença para cometer crime após crime, que vão expiando com os encarceramentos continuados, porém a disciplina que os ensina a ser trabalhadores, honrados e dignos.

Só quando a criminologia se apoiar na reencarnação, desaparecerão os delinquentes habituais. Os cárceres e presídios serão escolas de educação, ensino e refinamento, porque os egos maiores compreenderão quais são os seus deveres para com os menores, e, ao invés de lhes conceder direitos eletivos, os ajudarão na aquisição de virtudes. Este seria o procedimento para tratar os criminosos, melhor do que os empregados nas intituladas nações cultas de hoje em dia. Pois bem, porque alguns nascem estropiados, anões ou aleijados? É o resultado de crueldades infringidas a outros e que ao renascer pagam-se em espécie de deformidades. Por exemplo, os inquisidores nasceram estropiados. Os vivi sectores de hoje nascerão estropiados no porvir. Todos os cruéis obterão análogos resultados. O mestre de escola cruel (o professor) que aterroriza as crianças que deviam aprender a amá-lo; que as domina pelo medo, e não pelo amor; que abusa de seu poder e não sente a responsabilidade de sua altíssima função, nem conhece a divina lei que pôs em suas mãos o desvalido para que fosse protegido e não para ser oprimido, terá na reencarnação uma amenizadora mensagem, ainda que também seja no fim uma esperança, porque o sofrimento acabará melhorando-o. Em geral não se dá à crueldade a importância que ela merece. É um dos piores crimes, porque fere a lei de amor, e é ainda pior quando a vítima é indefesa e desvalida nas mãos do verdugo.

Pode, as vezes alegar-se a boa intenção como escusa da crueldade. O inquisidor desejava salvar almas; porém, devera ter usado outro meio melhor para salvá-las , do que o potro e a fogueira. O mesmo sucede com o vivi sector. Deseja salvar os corpos humanos, porém deve valer-se de um meio melhor, do que a tortura dos animais. O mesmo pode-se dizer dos professores. Melhor fariam extirpando as faltas pelo amor e bons exemplos, do que trazê-las à superfície a palmadas. Cada crueldade por parte do mais forte não só é nociva pelo sofrimento que infringe, como também pelos  resultados morais, pela cobardia, servilismo e medo que infunde, assim como pela perpetuação da crueldade, pois o débil cruelmente tratado será cruel por sua vez, quando se converter em forte.

A crença na reencarnação contribui para o fomento da moralidade, porque quem nela crê não age como o ignorante, que deve aprender pelo sofrimento; o que, se quisesse, poderia ser aprendido pela razão. Seja pela razão ou pelo sofrimento, todos devemos conhecer a lei.

Porque amamos e odiamos?

É em consequência de nossas relações passadas com tais pessoas. Algumas pessoas supõem que a reencarnação os separa dos seres que amam. Não, não há tal. Além de tudo, nas prolongadas vidas celestes, que às vezes duram milhares de anos, a maior parte do tempo passamos em companhia das pessoas a quem amamos na terra, e ao renascer os egos tendem a se agrupar com os que amamos no passado. Nada mais surpreendente, ao examinar uma série de vidas, do que ver como se reencarnam juntos os esposos, parentes e amigos, Se por qualquer razão nasceram em diferentes lugares do mundo, a lei os ajunta em amorosa amizade, se amaram no passado. Nada há no céu nem na terra capaz de matar o amor nem romper os seus laços. Onde há amor se estabelece entre os egos um laço que não pode ser desatado pela fria mão da morte, nem tão pouco pelo renascimento. Voltamos com os nossos antigos amigos e também com os nossos antigos inimigos. Ao ver pela primeira vez a uma pessoa, não haveis sentido nunca a impressão de que já a conhecíeis? Ao fim de duas ou três horas de conversação com esta pessoa ficais relacionados com ela mais intimamente do que se fora da mesma família. Ao contrário, sentireis instintiva repulsa para com outra pessoa desconhecida e haveis de obedecer a este sentimento porque é o aviso do ego contra um antigo inimigo. Convém guardar-se contra quem provoque semelhantes emoções, e depois enviar-lhe pensamentos de amor e de benevolência, pagando-lhe em bênçãos e bons desejos o antigo agravo. No fim de anos, podeis encontrar de novo a mesma pessoa, que já não será inimiga, porém neutra ou amiga. E quando ao encontrar pela primeira vez a uma pessoa, de vosso coração brote afeto para ela, prova será de que então o Espírito atrai o Espírito através do véu da carne.

Os corpos podem diferir bastante, porque a reencarnação nos leva de um país para outro, porém como os egos se conhecem mutuamente, se comoverão ao encontro dos corpos e apertarão as mãos com instintivo afeto. Assim se explicam os estranhos impulsos de súbita simpatia, como os velhos agravos explicam as repentinas repulsões. Aos sentirdes simpatia tereis o Fundamento da mais firme amizade que na terra se possa conhecer. Aquela profunda e instintiva evocação do invisível é mais segura do que todo raciocínio, argumentação ou conhecimento, e quando, além de profunda, é firme, merece a mais absoluta confiança.

Porém tenhamos a convicção de que provém de dentro e não de fora, como sucede às vezes nos amores fulminantes, porque se bem que pode ser o chamamento de um ego a outro, também é possível que sela a atração sensível de dois corpos de diferentes sexos, e então se contrairá o amor físico que se extingue pela posse. Poucas probabilidades de permanente felicidade tem o matrimônio baseado neste amor. Porém o profundo reconhecimento que exclama: “Este é o meu esposo” (Savitri exclamou. ao ver pela primeira vez a Satyavan, o homem com quem determinou casar-se, preferindo-o resolutamente a outros, apesar do vaticinio que só lhe concedia um ano de vida) é uma definida vontade brotada do interior, que merece toda a confiança e forma a mais sólida base de união conjugal, ou de amizade que imaginar-se possa na terra.

A reencarnação dando ao amor uma permanência que nenhuma outra coisa lhe pode dar,gera então a convicção de que nunca perderemos o ser amado. Também serve de poderoso auxílio a crença na reencarnação quando alguém ama sem ser correspondido, ou quando a correspondência não basta para a felicidade do que mais ama. Quem conhece a verdade da reencarnação exclama: “O meu profundo amor tem as suas raízes no passado. Se não me vejo correspondido, será por algum agravo que em outra vida infringi a quem amo. Pagarei esta dívida acrescentando o meu amor, e então nos uniremos.”

A reencarnação nos fortalece e nos capacita para o sofrimento. Não há infortúnio na vida, por amargo que seja, que não possamos sobrelevar quando conhecemos suas origens e prevemos o seu fim. O que são a dor e a tristeza para aqueles que tem de viver eternamente?

Resta uma pergunta: “Porque não recordamos as vidas passadas?” É a pergunta sempre repetida e a mais natural. “Se eu estive na terra centenas de vezes antes, porque não me recordo?”

Procuremos responder a esta pergunta, ainda que não seja mais do que para estimular o estudo da questão.

Na generalidade as pessoas se esquecem nesta vida muito mais do que recordam. O que recordais de vossa meninice? Pouca coisa. O primeiro livro que vos deram na escola, como prêmio, a primeira vez que passeastes em bote ou que viajastes de trem, porém a maior parte dos dias que formam a vossa infância não estão em vossa memória. Pois bem, se vos hipnotizassem recordaríeis os sucessos da infância, e isto prova que não os haveis esquecido realmente. Ficaram em segundo lugar muitas coisas passadas, encobertas por mais vividas memórias ou posteriores sucessos, porém em estado hipnótico reaparece o conjunto. Nada se perde. O hipnotizado falará na mesma linguagem de quando era criança e que olvidou desde então, ainda que o hipnotizador não o conheça. A transmissão do pensamento, em que até bem pouco não se cria, é hoje empregada, sem que ninguém a negue, para explicar os fenômenos anormais. O hipnotizador pergunta ao paciente onde nasceu e o paciente descreve sua vida infantil, falando tal como falou em sua infância, ainda que depois se esqueça ao despertar. Se o interroga a respeito de algum pormenor, como por exemplo, sobre um brinquedo perdido, o paciente se recordará e dirá até onde o pôs. Estas experiências tem sido repetidas muitas vezes, especialmente em Paris, onde em certa ocasião o hipnotizado descreveu com todos os seus pormenores o menu de um banquete celebrado três semanas antes, e não se recordava ao despertar.

O mesmo pode acontecer na febre. Uma vez um homem que perdera uma joia de valor, recordou em seu delicio, onde ela estava. Tudo isto é muito interessante ao tratar do problema da memória. Porque nos recordamos quando o cérebro está transtornado, como ocorre nos casos de delírio e transe? Porque o cérebro desequilibrado recorda o que em função normal olvida? Porque a memória de um acontecimento passado ficou recalcada para um segundo plano, por outro mais recente e se afunda sob a pressão da consciência. Diminuiu a força vibratória das células nervosas do cérebro, que é a expressão física do que chamamos memória, e esquecemos quando não estão em atividade. As células funcionam em grupos entrelaçados, e às vezes uma nova sensação, a de um odor por exemplo, desperta a memória adormecida e reproduz um sucesso em que esse odor interveio predominantemente. Uma das células cerebrais recebeu um estimulo, e o grupo celular a que pertence responde em conjunto ao estímulo.

Nestes fatos se funda a minha resposta à pergunta: “Porque não recordo minhas vidas passadas?” Quando o hipnotizador reconduz o paciente à época de sua infância, a prova de que aprendeu a linguagem que fala está no mero fato de a falar, como quando alguém lê é prova de que aprendeu a ler. Ainda que tenhais esquecido de que aprendestes a ler, não será prova de que não aprendestes, se sabeis ler. Por exemplo, eu não me recordo que me ensinaram a ler, nem tão pouco recordo o tempo em que não sabia ler, porém, suponho que sei ler, e prova é de que me ensinaram. Assim o fato de terdes um caráter e uma consciência demonstra que também tendes um passado em que o caráter e a consciência se formaram e desenvolveram.

Entretanto, convém ir mais adiante. Agora não viveis com o cérebro, nem o temperamento emocional, nem com a mente que tivestes no passado. Vosso ego é o mesmo, porém suas vestes são outras, e o corpo que tendes só se recorda de suas próprias experiências, ou seja os sucessos físicos, emocionais e mentais com as manifestações da vida presente. O cérebro é novo, Como poderia o cérebro recordar os sucessos de uma vida que não conheceu? O corpo de desejos é novo, Como poderia recordar os desejos sentidos e satisfeitos por seu predecessor? A mente é nova. Como recordará passados pensamentos? Unicamente o verdadeiro homem, o Ego imortal, é capaz de recordar, porque passou por todas as experiências e nada esqueceu. Porém não grava sua peculiar e eterna memória nos novos corpos de que se reveste para adquirir novas experiências.

Com tudo, podereis ter memória das vidas passadas se empregardes os métodos a propósito, que são bastante delicados. Vossa energia se dirige sempre para o mundo exterior, onde estão os vossos interesses, pensamentos e prazeres, de sorte que toda a inata energia do permanente e perdurável ego, do verdadeiro Eu flui sempre para fora por conduto dá mente, da natureza emocional e do corpo físico. Continuamente busca o exterior. Pois bem, haveis de inverter sua direção. Deveis voltá-la para dentro se quereis recordar. Volvê-la para o espírito manifesto no ego, em quem unicamente, reside a memória do passado. Só podereis recordar quando reconhecerdes em vós o ego e alcançardes sua memória. Unicamente o ego foi ator e testemunha dos acontecimentos de vidas passadas, e quando acaba uma vida e no mundo celeste se transmutam as experiências em faculdades, a memória destas experiências se armazena na área espiritual do ego, e só se transferem aos novos corpos as faculdades adquiridas como resultado das experiências. Pode-se comparar ao comerciante que, nas novas contas do cliente só anota os saldos anteriores sem reproduzir os assentos precedentes. Isto é o que faz o ego no mundo celeste. Computa o balanço de suas contas e lixa as do passado sem anulá-las, porque as guarda em sua memória. Transfere o saldo para a conta nova da mente e da consciência. Assim, por exemplo, a propensão de pensar no assassinato formará parte do saldo na conta nova, porque provém só da propensão de pensar o que se transfere à nova mente e ao novo cérebro. Estas propensões ou tendências a pensar de certo modo correspondem à educação e a tornam possível, sendo a razão fundamental de que a consciência cerebral não recorde.

E não é beneficioso que assim aconteça? Disse que poderíeis recordar a memória pela interna meditação; por viver no superior e não no inferior, no Espírito e não na mente nem ·na natureza do desejo, nem no corpo físico. Vivei a vida espiritual, vivei no Espírito que conhece a Unidade e a Divindade, que se conhece a si mesma e então se desdobrará o passado ante vós e o alcançareis em conjunto à vontade.

Alguns de nós sabemos que isto é verdade, porque o praticamos e a sua prática é a melhor prova, para quem o praticou. Porém não o é para os outros. Eu vos digo o que sei com certeza e também conheço a um bom número de pessoas que podem recordar, comparar observações, comprovar fatos e se reconhecer mutuamente através de passados milênios. Entretanto eu pergunto: “Não é conveniente que não recordeis?” Tende presente as últimas palavras de Goethe na sua última hora. Cria na reencarnação como creem todos os filósofos e exclamou: “Que consolo é pensar que voltarei banhado de novo.” Porém quando, entretanto, não se compreende a verdade da reencarnação, a ignorância do destino é um benefício da lei. Suponhamos que um jovem marido recém-casado soubesse que um dos dois havia de morrer antes de um ano. Desde então, durante todo este tempo estariam ambos atormentados pela proximidade da morte. Outro exemplo. Se alguém cometeu em sua juventude uma ação má não teria doloroso remorso ao recordá-lo? Em casos mais graves, um criminoso se emendaria com maior facilidade se pudesse apagar a memória de seu crime que o aguilhoa impedindo-o de se reabilitar e progredir.

Muito mais ditosas seriam as pessoas se lhes fosse possível olvidar os passados erros da vida presente. Algumas coisas vale mais olvidarem-se, por exemplo, os agravos e injúrias recebidos, De Shri Ramachandra se diz que à noite havia já esquecido os agravos recebidos durante o dia, enquanto que jamais olvidava um só benefício. O homem perfeito recorda com viva gratidão os benefícios que recebe e apaga em sua memória as injúrias. Enquanto o homem não for capaz de manter a memória de sua vida presente sem pesares, remorsos nem ansiedades, e sobretudo sem rancor nem agravo, não convém adicionar à carga de uma só vida a lembrança de um milênio passado. Quando o homem for bastante forte para considerar a vida presente como uma lição a aprender e a veja sem queixas, sem ressentimentos, desgosto ou cólera, então terá a força necessária para rememorar o passado; mas enquanto não for capaz de resistir serenamente às vicissitudes de uma vida, não deve pretender o conhecimento de uma outra passada. É uma sábia e misericordiosa ordem o ego só transferir aos novos corpos, mental, emocional e físico o precisamente útil para a nova vida. Quando o homem alcançar a memória do ego e se identificar consigo mesmo, será suficientemente forte para suportar a carga suplementar e recordará com seu novo cérebro.

Esta é, por hoje, a última resposta aos problemas da vida. Todas as que vos acabo de dar não as devereis aceitar sem que as analiseis e o estudo as justifique perante o vosso critério, pois que o repetir um conceito sem pensar nele não favorece o positivo avanço. Pensai compreendei, e assim progredireis. Não recolhais um novo conjunto de opiniões que sejam apenas o reflexo do pensamento alheio. A imitação não é de nenhum modo neste caso, a mais sincera lisonja. O anelante pensamento individual é a melhor maneira de agradecer as exortações à vossa razão. Abandonai as preocupações e prejuízos que vos inclinem a repugnar uma ideia por ser nova ou aceitá-la por ser velha. O meu propósito é livrar-vos da aversão ao estudo e persuadir-vos a pensar por vós mesmos. Vale mais pensar imperfeitamente por si do que limitar-se a repetir um exato pensamento alheio. Para alcançar sabedoria é preciso pensar vigorosa, paciente e perseverantemente.

Se apenas repetirdes o que ouvis adquirireis a faculdade do papagaio, porém não a do homem.

Fonte: Capítulo do livro “Leituras Populares de Teosofia” – Annie Besant – Editorial Teosófica – Palestras ministradas em Adyar no ano de 1910.

Revisão: SR.Black

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